Eis uma série de anime de 13 episódios chamada "Haibane Renmei - Les ailes gríses", série que vi na sua versão francesa editada pela Dynamic belga (Ver: www.dybex.com)
É uma série que não tem violência, não tem sexo, não tem "mechas" e que não é debileradamente cómica nem deliberadamente romântica. Enfim, não tem talvez aquilo que um adolescente borbulhento normalmente esperaria ver num anime japonês.
Mas isso não impede que seja um dos animes mais espantosos que eu alguma vez vi.
De facto, todo o anime é um espanto de imaginação criadora desenvolvida de uma forma tão pormenorizada e meticulosa; até mesmo os pequenos pormenores da cultura quotidiana.
É também um espanto na forma como constrói as personalidadesdas suas personagens e com,o as faz tão emotivamente comoventes e tão emocionalmente impressionantes para a mente e para o coração do espectadora da série.
Em suma, é uma série que vai até ao fundo das mais profundas emoções humanas. Emoções ligadas ao nascer; com o existir-se; com o ajudar-se e estimar-se; com o perguntar-se o porquê das coisas; com o morrer; com a ausência daqueles a quem já amamos enquanto vivos.
E isso tudo fora de qualquer estrutura biológica ou familiar dita normal. De facto, vemos tudo isso a ocorrer no seio de uma estranha comunidade de "anjos caídos" (com assas e auréola, a sério!) vindos misteriosamente de nenhures (onde estávamos nós antes de "nascermos", afinal?) e destinados a desaparecerem em algum dia vindouro (Para onde vamos depois de "morrermos" afinal?!).
Até parece que a condição mortal da humanindade sai mais realçada quando representada dessa maneira
A tal comunidade de "anjos caídos" (com asas e auréola, já disse!) vive numa espécie de abrigo comunal no campo; a um par de quilómetros de distância de uma pequena cidade humana de província.
O entendimento entre humanos e "anjos" (com asas e auréola, repito!) desenrola-se de forma fraterna.
A vida desta pequena cidade humana desenrola-se ao ritmo plácido de uma existência meio-agrícola meio-técnica. O suficiente para haver algumas motorizadas mas nenhum carro. O suficiente para haver lâmpadas eléctricas e moínhos de vento produtores de electricidade mas nenhum rádio ou televisão. O suficiente para haver bibliotecas, casa de pasto, lojas pequenas e relógios mecânicos mas nada que se pareça com MacDonals, uma FNAC, um cybercafé ou uma sala de cinema num Shopping Center.
Enfim, o tipo de cidade de província que se esperaria encontrar numa certa Europa dos anos 30.
Mas que mundo é afinal este?
Mistério!
Assim como misterioso é o "governo secreto" personificado por uma estranha classe de sacerdotes e monges mascarados que só comunicam entre si por intermédio de uma linguagem gestual embora possam falar ocasionalmente com os humanos e os "anjos" (com... está bem, não digo mais nada...!). Mas tal é raro.
A série impõe perguntas ao qual nunca dará resposta.
Pelo que todas as interpretações ou mensagens simbólicas que alguém pretenda ver nesta séries serão proventura possíveis.
Mas, no fundo, é uma especulação inútil.
A condição humana também é só perguntas e nenhuma resposta.
Como diz uma das personagens da série: "A vida é um mistério". Inutilizada a razão o que fica é o amor.
Esta série não é nenhuma história de "rapaz encontra rapariga". Mas é uma história de amor no sentido grego de "ÁGASE" ou no sentido latino de "CARITAS". O tipo de amor e saudade que um sobrinho pode ter pela sua tia favorita, por exemplo.
Mais para lá do fim desta série esta sensação de amor e saudade torna-se ainda mais intensa e as lágrimas vêm-nos facilmente aos olhos.
Para além disso, esta série contem um "design" fabuloso. Um "design" bem pensado e bem concebido no modo como cria o ambiente apropriado para a narrativa.
Comentário final: A ver, a sentir e a meditar. Absolutamente!