Esta vai ser complicada! Resumir a intriga de MPD-Psycho é uma tarefa quase impossível (um pouco como se vos pedissem para explicar um filme do David Lynch). O que se passa – acho eu – é mais ou menos isto: Kobayashi Yosuke é um oficial da polícia encarregado da investigação que persegue um assassino em série chamado Nishizono Shinji. Devido a um incidente traumático, Yosuke desenvolve uma dupla personalidade e, ocasionalmente, transforma-se em Amamiya Kazuhiko (detentor de especiais talentos como profiler criminal). Quando Yosuke finalmente captura Nishizono, alveja-o e esse acto faz com que seja expulso da polícia. Com a sua mulher, Yosuke abre uma cafetaria e a vida prossegue calma até ao dia em que um novo assassino dá à costa. Um novo assassino? Será?
O que se segue tem de ser visto, porque sumariá-lo está fora de questão. Se perguntar a mim próprio o que é que se segue, o que é que me vem à mente, a resposta é esta: uma marca sagrada na forma de um código de barras tatuado num olho (não, não é nas redondezas, não é nas pálpebras, é mesmo no branco do globo ocular, escondido por detrás de uma pálpebra); um tal Lucy Monostone (um rocker falhado dos anos 60 que virou terrorista) e as suas “Flower Children”; uma forma de possessão do corpo não por um demónio, mas por uma pessoa; um assassino que faz do crânio das suas vítimas vasos para plantas; um assassino que deixa as suas vítimas, mulheres grávidas, sangrar até à morte, para depois as abrir, retirar o feto e no seu lugar deixar um telemóvel... e por aí fora. A lista de bizarrias é extensa demais para continuar.
MPD-Psycho (MPD significa Multiple Personality Disorder, ou, neste caso, Detective) é uma série de seis episódios para televisão realizada pelo inconfundível Takashi Miike. O realizador japonês pegou no tradicional drama policial e deu-lhe uma volta que, vá-se lá saber como, funciona mesmo para além da sua incompreensibilidade. Miike não facilita e não faz concessões. Quem estiver disposto a entrar que o faça por sua conta e risco. Esqueçam a narrativa convencional e preparem-se para perder a orientação num universo perturbador, ilustrado visualmente de uma forma quase psicótica. O único escape para o espectador seria o humor que Miike injecta ao longo dos episódios, mas até esses alívios cómicos, no contexto, contribuem para a sensação de estranheza e irrealidade.
que não quer dizer que MPD-Psycho represente um universo estanque, antes pelo contrário. No subtexto desta ideia maluca de Takashi Miike está uma interessante dissertação sobre a natureza do mal e a sua propagação social, bem como o papel dos media nessa propagação. No seu todo, MPD-Psycho é um OVNI que desafia a lógica e a compreensão (e, muitas vezes, a paciência), mas cuja estranheza funciona como um acto de sedução.