HomePage > Crónicas > João Barreiros > Júlio Verne 01:24 - 09 Sep 2010
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Júlio Verne
Júlio Verne

Júlio Verne, esse autor francês (1828-1905), que na inocência da sua juventude sempre aspirou a outros voos bem mais altos e literários do aqueles a que o destino, (ou o terrível dedo censório do editor Hetzel) lhe permitiram realizar, criou, lado a lado com seu parceiro Wells, um dos géneros mais "malditos" da literatura do séc XX. A verdade é que todos os infernos literários estão cheios de boas intenções e a arte não foge à regra. Poesias, peças de teatro, romances naturalistas, nada disto foi aceite pelo editor. Se Júlio Verne, quisesse algum dia ser publicado, deveria apenas dedicar-se a escrever para a juventude. Preso entre a espada e a parede, Verne não teve outra solução senão assinar com o diabo, em 1863, um pacto de fidelidade mútua que duraria 40 anos, e que o obrigava a entregar na editora, pelo menos um livro por ano.

Por ordens de quem mais manda e assina os cheques, a sua obra acabou por ser constituída por mais de uma centena de títulos, sessenta e quatro deles pertencentes ao ciclo das VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS, mais outros 31 volumes de natureza um tanto ou quanto conjectural e especulativa. Mas foi por causa dessas conjecturas, por vezes suaves, outras desmedidas, discretamente ocultas entre páginas e páginas de inefável didatismo, que Júlio Verne será para sempre lembrado.

Julio Verne Cinco Semanas

Assim, nesse ano fatídico ano de 1863, apareceram as CINCO SEMANAS EM BALÃO, que relatavam uma viagem aérea sobre o continente africano num aeróstato mais ou menos dirigível. As especulações aqui, eram apenas geográficas, mas pode dizer-se que foi Verne e não Stanley quem afinal descobriu as secretas nascentes do Nilo. No ano seguinte, na VIAGEM AO CENTRO DA TERRA, descíamos já pela cratera do vulcão extinto Sneffels na companhia do Professor Lindenbrock, que nunca se escusava a dar-nos umas quantas dezenas de lições de paleontologia e geologia aplicada, rumo a essa terra oca, cheia de um mar interior, povoada de fósseis vivos, manadas de mamutes e trogloditas quanto baste. A narrativa encontrava-se dividida em três personagens principais, o cientista modelo, o herói atlético modelo, e o jovem ingénuo com quem o público leitor podia identificar-se e a quem era necessário explicar tudo.

Mais um ano de gestação e fazia-se já a viagem DA TERRA À LUA, num obus disparado pela guilda dos artilheiros americanos, um tal "Gun Club". Para que tal feito fosse possível, nada mais fácil do que escavar um túnel/canhão numa montanha próxima do Cabo Canaveral. A coincidência é voluntária, pois nessas latitudes a Lua encontra-se quase na vertical do lugar como costuma acontecer apenas entre os dois trópicos. Disparado o projéctil, eis os nossos heróis lançados na direcção da lua, intactos, mesmo depois de terem estado sujeitos a uma aceleração capaz de reduzir todo e qualquer organismo que se preze a polpa de tomate, entretidos a abrir "janelinhas" em pleno vácuo para deitarem fora o cadáver de um cão que entretanto morrera.

Viagem à Centro da Terra Da Terra à Lua

Em 1867 partíamos para um Polo Norte de tal modo exótico que só existe no nosso imaginário, um Polo centrado num mar interior repleto de criaturas marinhas, aéreas e terrestres ainda hoje completamente desconhecidas. Com estes INGLESES NO POLO NORTE e o DESERTO DE GELO começa enfim o ciclo das VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS, delineado pelo omnipresente Hetzel, que compôs estas singelas palavras: "O que tantas vezes se promete mas tão raramente se cumpre, a instrução que diverte, a diversão que instrui, o Sr. Verne cumpre-o em cada uma das páginas das suas comoventes narrativas. Quando vemos o público apressado acorrer às conferencias que entretanto abriram em mil lugares da França, quando se percebe que ao lado dos críticos de arte e de teatro foi preciso dar lugar nos nossos jornais aos relatos saídos da Academia das Ciências, temos razão em dizer que a arte pela arte já não basta à nossa época, que chegou a hora em que a ciência terá o seu devido lugar no domínio da literatura."

Visto que o futuro está à janela e que o século que finda se transformou num poema ao positivismo, Verne ganha sucesso, força e entusiasmo. Ei-lo com as VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS (1870) a espalhar pelo mundo a cornucópia dos futuros cintilantes e eléctricos: acumuladores de energia, alimentação à escala planetária, armamento sofisticado, cidades submersas, Senhores do Mundo que se servem de armas para impor a paz, submarinos utilizados como formas de destruir o poder dos Impérios britânicos e germânicos. Quanto ao Capitão Nemo representa talvez o primeiro dos heróis malditos da actualidade. É o herói estrangeiro, o príncipe Hindu renegado, esteta, cientista e misantropo que esmaga o colonialismo Inglês e, por uma questão de princípio, todo e qualquer outra forma de colonialismo. Enfim, um herói feito à medida de Byron que volta a renascer, depois de sugado pelo vórtice do Maelstrom, na ILHA MISTERIOSA (1868) para dar uma mãozinha a uns quantos náufragos que se dedicam a reconstruir a partir de quase nada, toda a maravilhosa civilização do séc XIX.

Ingleses no Polo Norte Ingleses no Polo Norte

E o delírio mal começou, pois em HECTOR SERVADAC(1877) percorre-se o sistema solar de uma ponta à outra num pedaço de terra colado ao gelo de um cometa, para no final voltarmos à Terra (viajando por esse vácuo que Verne recusava a existência), a bordo de um simples...balão. E depois chegaram as ilhas feitas de aço da utopia germânica Stahlstadt, de canhões apontados contra a cidade aérea de France-ville. Salva-se quem é Francês, pois os canhões, por um erro de cálculo germânico e ignorância de Verne falharam o alvo e colocaram os obuzes destrutores numa órbita permanente à volta da Terra. Agora, os helicópteros servem já a vontade de poder dos sábios loucos, disparos de canhão( francamente, já é mania) quase fazem a Terra dar uma cambalhota nos eixos, hologramas e imagens de TV alegram românticos nostálgicos isolados no solitário CASTELO DOS CÁRPATOS (1892).

Como se pode constatar, Verne não será propriamente um autor original. As suas narrativas raras vezes ultrapassaram os conhecimentos científicos da época. Em abono da verdade, a leitura das obras do seu parceiro britânico, H. G. Wells, dava-lhe suores frios. "Mais il invente !", dizia, chocado com tanto delírio especulativo. Como se as suas próprias criações tivessem raízes bem mais profundamente ancoradas na realidade. Verne era um escritor pragmático, burguês da classe média, defensor do progresso e das suas maravilhas, crente nas capacidades civilizadoras do homem europeu.

Por outro lado, Wells, nascido 40 anos mais tarde, pertencia à classe média-baixa e nos seus terrores havia já a premunição que o universo vitoriano estava à beira do fim. Que a ciência era eminentemente corruptível. E que os seus cientistas/heróis em vez de partirem à conquista do mundo, eram literalmente devorados por ele como o pobre Dr. Moreau bem pode atestar. Restam pois, os mitos. A ideia, por demais falsa, que Verne era um visionário. Que inventou tudo o que o emergente século XX poderia produzir. Tal não aconteceu, de facto. O futuro que hoje vivemos não foi, não será nunca o seu. As descobertas, as inovações tecnológicas produzidas por esse optimismo um tanto ou quanto néscio, já existiam à época, em embrião. Verne limitou-se a um simples acto de copy-past. E para mostrar que estava bem informado, que sabia do que falava, usou e abusou do proverbial info-dump, levando quem quer que o lesse à beira do desespero. Por sua própria vontade, nunca se atreveu a ir além do seu tempo. Das raríssimas vezes que falou do futuro, imaginou-o como mais uma variante da estratificação vitoriana.

Ingleses no Polo Norte Ingleses no Polo Norte

Por isso, no imaginário colectivo de quem ouviu falar do Verne pela rama, é hábito atribuir-se-lhe a bomba atómica, a televisão, o automóvel, o computador e o cinema. Desenganem-se os crentes, pois o nosso estimado autor nunca teve saudades do futuro. Os seus sonhos não foram eléctricos (À excepção das turbinas do Nautilus, que parecem sugar esse tipo de energia dos próprios oceanos), neles não existem arranha-céus de aço forjado, auto-estradas feitas de tapetes rolantes, ou auto-giros a rodopiar nos céus. O futuro que se adivinha não canta, é por demais sombrio. — E tudo isto por culpa do tirano Hetzel, como mais abaixo se verá.

À medida que o tempo passa e que a idade nos vai tornando cada vez mais conservadores, também Verne não consegue escapar-se às desgraças que o fim do século anuncia. Os seus textos tornam-se cada vez mais pessimistas, a imaginação escasseia, o mundo acaba de vez no conto O ETERNO ADÃO(1905) sem que seja possível um acto redentor da ciência. Em 1910, talvez para se redimir destes futuros que já não cantam, publica o seu último livro póstumo (escrito em 1902). Nele, a heroína invisível só conseguirá voltar ao seu estado natural de opacidade quando der à luz um filho.

Ilha Misteriosa Castelo dos Carpatos

Verne nasceu e foi criado no porto de Nantes e talvez não seja uma coincidência que o mar apareça como personagem principal nos seus melhores romances. O pai, advogado, estava à espera que o filho lhe seguisse as pisadas, mas desde muito cedo Verne bateu o pé, disse não à mundanidade e tentou, sem grande sucesso, trocar de lugares com um marujo. Foi descoberto, claro, ainda a costa estava à vista. Desvarios da juventude. Melhor solução seria fazer as malas, deslocar-se até Paris com consentimento paterno e, sob a mão protectora de autores como Victor Hugo e Alexandre Dumas Filho escrever uma boa vintena de peças de teatro (ainda hoje inéditas), versos românticos e libretti. Infelizmente as coisas não melhoraram muito, a vida de boémia era difícil de cumprir para quem tinha recebido uma boa educação católica, as mulheres deixavam-no pouco à vontade tanto em termos pessoais como em termos narrativos. Enfim, ponto final na vida de bon vivant. Com a ajuda do pai (pois é para isso que eles servem) começou a trabalhar na bolsa até ao encontro fatal com o editor Jules Hetzel (1814-1886).

E em 1986, quase cem anos depois, descobre-se nos arquivos privados dos herdeiros do editor, o rascunho de uma carta dirigida a um jovem Verne de 35 anos, uma daquelas mensagens que fazem a desgraça e angústia de todos os escritores. A recusa de um texto literário. Ainda por cima um romance de antecipação sobre Paris no século XX. Uma obra quase mítica perdida para sempre. "Meu caro Verne", dizia Hetzel na carta, com toda a firmeza que o cargo lhe permitia, "se você fosse um profeta, ninguém hoje em dia acreditava nas suas profecias...". E ainda por cima que a história estava sobrecarregada de neologismos. Que o texto não era "edificante", "que não divertia nada", "que era tudo muito pueril", "que não havia ali nem medida nem bom gosto", que Verne estava completamente "bêbado".

Hector Servadac Eterno Adão

Porém, como costuma acontecer nos grandes romances populares, (pois este é um dos casos em que a realidade é mais estranha do que a ficção), no sotão da casa ancestral da família Verne, os netos encontram um cofre selado a sete chaves que nunca ninguém se lembrou de abrir. E que, desta feita, por mero capricho, resolvem estoirar de vez (porque não ?) a dinamite. Tampa aberta, descobrem lá no fundo um manuscrito. Já se sabe qual.

Cem anos depois, publica-se o último romance de Verne que talvez tenha sido o primeiro. O romance maldito e quase auto-biográfico que o afastou da escrita da Ficção Científica. Fala-nos de Paris mágica, nesse futuro então distante dos anos sessenta, uma Paris iluminada pela electricidade e electromagnetismo, uma capital entregue ao culto da ciência e tecnologia, transformada num imenso porto marítimo, ligado ao gigantesco farol Grenoble por um canal artificial. Metros suspensos e automatizados, automóveis individuais, silenciosos e não poluentes movidos a hidrogénio, enfim, uma utopia onde daria gosto viver-se, não fossem as ciências mecânicas terem o direito de cidade e os poetas e escritores estarem reduzidos à miséria e ao ridículo. De facto, a população toda ela alfabetizada, não consegue ler outra coisa senão manuais técnicos. A desculturização tornou-se realidade.

"Ninguém acreditava na sua profecia?" Ai, Sr. Hetzel, ao descrever esta era de pósliteratos, onde os romances ganham bolor nas estantes poeirentas das livrarias, nunca Verne foi tão profético....

12.2005
João Barreiros
 
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