Júlio Verne, esse autor francês (1828-1905),
que na inocência da sua juventude sempre
aspirou a outros voos bem mais altos e
literários do aqueles a que o destino,
(ou o terrível dedo censório do editor
Hetzel) lhe permitiram realizar, criou,
lado a lado com seu parceiro Wells, um
dos géneros mais "malditos" da literatura
do séc XX. A verdade é que todos os infernos
literários estão cheios de boas intenções
e a arte não foge à regra. Poesias, peças
de teatro, romances naturalistas, nada
disto foi aceite pelo editor. Se Júlio
Verne, quisesse algum dia ser publicado,
deveria apenas dedicar-se a escrever para
a juventude. Preso entre a espada e a parede,
Verne não teve outra solução senão assinar
com o diabo, em 1863, um pacto de fidelidade
mútua que duraria 40 anos, e que o obrigava
a entregar na editora, pelo menos um livro por ano.
Por ordens de quem mais manda e assina os
cheques, a sua obra acabou por ser
constituída por mais de uma centena de
títulos, sessenta e quatro deles pertencentes
ao ciclo das VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS, mais
outros 31 volumes de natureza um tanto ou
quanto conjectural e especulativa. Mas
foi por causa dessas conjecturas, por
vezes suaves, outras desmedidas, discretamente
ocultas entre páginas e páginas de inefável
didatismo, que Júlio Verne será para sempre
lembrado.
Assim, nesse ano fatídico ano de 1863,
apareceram as CINCO SEMANAS EM BALÃO, que
relatavam uma viagem aérea sobre o continente
africano num aeróstato mais ou menos dirigível.
As especulações aqui, eram apenas geográficas,
mas pode dizer-se que foi Verne e não Stanley
quem afinal descobriu as secretas nascentes
do Nilo.
No ano seguinte, na VIAGEM AO CENTRO DA
TERRA, descíamos já pela cratera do vulcão
extinto Sneffels na companhia do Professor
Lindenbrock, que nunca se escusava a dar-nos
umas quantas dezenas de lições de paleontologia
e geologia aplicada, rumo a essa terra oca,
cheia de um mar interior, povoada de
fósseis vivos, manadas de mamutes e
trogloditas quanto baste. A narrativa
encontrava-se dividida em três personagens
principais, o cientista modelo, o herói
atlético modelo, e o jovem ingénuo com
quem o público leitor podia identificar-se
e a quem era necessário explicar tudo.
Mais um ano de gestação e fazia-se
já a viagem DA TERRA À LUA, num obus
disparado pela guilda dos artilheiros
americanos, um tal "Gun Club". Para que
tal feito fosse possível, nada mais fácil
do que escavar um túnel/canhão numa
montanha próxima do Cabo Canaveral. A
coincidência é voluntária, pois nessas
latitudes a Lua encontra-se quase na
vertical do lugar como costuma acontecer
apenas entre os dois trópicos. Disparado
o projéctil, eis os nossos heróis lançados
na direcção da lua, intactos, mesmo depois
de terem estado sujeitos a uma aceleração
capaz de reduzir todo e qualquer
organismo que se preze a polpa de tomate,
entretidos a abrir "janelinhas" em pleno
vácuo para deitarem fora o cadáver de um
cão que entretanto morrera.
Em 1867 partíamos para um Polo Norte
de tal modo exótico que só existe no
nosso imaginário, um Polo centrado
num mar interior repleto de criaturas
marinhas, aéreas e terrestres ainda
hoje completamente desconhecidas.
Com estes INGLESES NO POLO NORTE
e o DESERTO DE GELO começa enfim
o ciclo das VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS,
delineado pelo omnipresente Hetzel,
que compôs estas singelas palavras:
"O que tantas vezes se promete mas
tão raramente se cumpre, a instrução
que diverte, a diversão que instrui,
o Sr. Verne cumpre-o em cada uma das
páginas das suas comoventes narrativas.
Quando vemos o público apressado acorrer
às conferencias que entretanto abriram
em mil lugares da França, quando se percebe
que ao lado dos críticos de arte e de
teatro foi preciso dar lugar nos nossos
jornais aos relatos saídos da Academia
das Ciências, temos razão em dizer que
a arte pela arte já não basta à nossa
época, que chegou a hora em que a ciência
terá o seu devido lugar no domínio da
literatura."
Visto que o futuro está à janela e
que o século que finda se transformou
num poema ao positivismo, Verne ganha
sucesso, força e entusiasmo. Ei-lo com
as VINTE MIL LÉGUAS SUBMARINAS (1870)
a espalhar pelo mundo a cornucópia dos
futuros cintilantes e eléctricos:
acumuladores de energia, alimentação à
escala planetária, armamento sofisticado,
cidades submersas, Senhores do Mundo que
se servem de armas para impor a paz,
submarinos utilizados como formas de
destruir o poder dos Impérios britânicos
e germânicos. Quanto ao Capitão Nemo
representa talvez o primeiro dos
heróis malditos da actualidade. É o
herói estrangeiro, o príncipe Hindu
renegado, esteta, cientista e misantropo
que esmaga o colonialismo Inglês e, por
uma questão de princípio, todo e qualquer
outra forma de colonialismo. Enfim, um
herói feito à medida de Byron que volta
a renascer, depois de sugado pelo vórtice
do Maelstrom, na ILHA MISTERIOSA (1868)
para dar uma mãozinha a uns quantos
náufragos que se dedicam a reconstruir
a partir de quase nada, toda a maravilhosa
civilização do séc XIX.
E o delírio mal começou, pois em
HECTOR SERVADAC(1877) percorre-se
o sistema solar de uma ponta à outra
num pedaço de terra colado ao gelo
de um cometa, para no final voltarmos
à Terra (viajando por esse vácuo que
Verne recusava a existência), a bordo
de um simples...balão. E depois chegaram
as ilhas feitas de aço da utopia germânica
Stahlstadt, de canhões apontados contra a
cidade aérea de France-ville. Salva-se
quem é Francês, pois os canhões, por
um erro de cálculo germânico e ignorância
de Verne falharam o alvo e colocaram os
obuzes destrutores numa órbita permanente
à volta da Terra. Agora, os helicópteros
servem já a vontade de poder dos sábios
loucos, disparos de canhão( francamente,
já é mania) quase fazem a Terra dar uma
cambalhota nos eixos, hologramas e imagens
de TV alegram românticos nostálgicos
isolados no solitário CASTELO DOS CÁRPATOS (1892).
Como se pode constatar, Verne não
será propriamente um autor original.
As suas narrativas raras vezes ultrapassaram
os conhecimentos científicos da época.
Em abono da verdade, a leitura das
obras do seu parceiro britânico, H. G.
Wells, dava-lhe suores frios. "Mais
il invente !", dizia, chocado com tanto
delírio especulativo. Como se as suas
próprias criações tivessem raízes bem
mais profundamente ancoradas na realidade.
Verne era um escritor pragmático, burguês
da classe média, defensor do progresso
e das suas maravilhas, crente nas
capacidades civilizadoras do homem
europeu.
Por outro lado, Wells, nascido
40 anos mais tarde, pertencia à classe
média-baixa e nos seus terrores havia
já a premunição que o universo vitoriano
estava à beira do fim. Que a ciência
era eminentemente corruptível. E que os
seus cientistas/heróis em vez de
partirem à conquista do mundo, eram
literalmente devorados por ele como o
pobre Dr. Moreau bem pode atestar.
Restam pois, os mitos. A ideia, por
demais falsa, que Verne era um visionário.
Que inventou tudo o que o emergente
século XX poderia produzir. Tal não
aconteceu, de facto. O futuro que hoje
vivemos não foi, não será nunca o seu.
As descobertas, as inovações tecnológicas
produzidas por esse optimismo um tanto
ou quanto néscio, já existiam à época,
em embrião. Verne limitou-se a um simples
acto de copy-past. E para mostrar que
estava bem informado, que sabia do
que falava, usou e abusou do proverbial
info-dump, levando quem quer que o
lesse à beira do desespero. Por sua
própria vontade, nunca se atreveu a
ir além do seu tempo. Das raríssimas
vezes que falou do futuro, imaginou-o
como mais uma variante da estratificação
vitoriana.
Por isso, no imaginário
colectivo de quem ouviu falar do
Verne pela rama, é hábito atribuir-se-lhe
a bomba atómica, a televisão, o
automóvel, o computador e o cinema.
Desenganem-se os crentes, pois o nosso
estimado autor nunca teve saudades do
futuro. Os seus sonhos não foram eléctricos
(À excepção das turbinas do Nautilus,
que parecem sugar esse tipo de energia
dos próprios oceanos), neles não existem
arranha-céus de aço forjado, auto-estradas
feitas de tapetes rolantes, ou auto-giros
a rodopiar nos céus. O futuro que se
adivinha não canta, é por demais sombrio.
— E tudo isto por culpa do tirano Hetzel,
como mais abaixo se verá.
À medida que o tempo passa e que a idade
nos vai tornando cada vez mais conservadores,
também Verne não consegue escapar-se às
desgraças que o fim do século anuncia.
Os seus textos tornam-se cada vez mais
pessimistas, a imaginação escasseia, o
mundo acaba de vez no conto O ETERNO
ADÃO(1905) sem que seja possível um
acto redentor da ciência. Em 1910, talvez
para se redimir destes futuros que já
não cantam, publica o seu último livro
póstumo (escrito em 1902). Nele, a
heroína invisível só conseguirá voltar
ao seu estado natural de opacidade
quando der à luz um filho.
Verne nasceu e foi criado no porto
de Nantes e talvez não seja uma
coincidência que o mar apareça como
personagem principal nos seus melhores
romances. O pai, advogado, estava à
espera que o filho lhe seguisse as pisadas,
mas desde muito cedo Verne bateu o pé,
disse não à mundanidade e tentou, sem
grande sucesso, trocar de lugares com
um marujo. Foi descoberto, claro, ainda
a costa estava à vista. Desvarios da
juventude. Melhor solução seria fazer
as malas, deslocar-se até Paris com
consentimento paterno e, sob a mão
protectora de autores como Victor Hugo
e Alexandre Dumas Filho escrever uma boa
vintena de peças de teatro (ainda hoje
inéditas), versos românticos e libretti.
Infelizmente as coisas não melhoraram
muito, a vida de boémia era difícil de
cumprir para quem tinha recebido uma boa
educação católica, as mulheres deixavam-no
pouco à vontade tanto em termos pessoais
como em termos narrativos. Enfim, ponto
final na vida de bon vivant. Com a ajuda
do pai (pois é para isso que eles servem)
começou a trabalhar na bolsa até ao
encontro fatal com o editor Jules Hetzel (1814-1886).
E em 1986, quase cem anos depois, descobre-se
nos arquivos privados dos herdeiros do editor,
o rascunho de uma carta dirigida a um jovem
Verne de 35 anos, uma daquelas mensagens
que fazem a desgraça e angústia de todos
os escritores. A recusa de um texto literário.
Ainda por cima um romance de antecipação
sobre Paris no século XX. Uma obra quase
mítica perdida para sempre. "Meu caro Verne",
dizia Hetzel na carta, com toda a firmeza que
o cargo lhe permitia, "se você fosse um profeta,
ninguém hoje em dia acreditava nas suas profecias...".
E ainda por cima que a história estava
sobrecarregada de neologismos. Que o texto
não era "edificante", "que não divertia nada",
"que era tudo muito pueril", "que não havia
ali nem medida nem bom gosto", que Verne estava
completamente "bêbado".
Porém, como costuma acontecer nos grandes
romances populares, (pois este é um dos
casos em que a realidade é mais estranha
do que a ficção), no sotão da casa ancestral
da família Verne, os netos encontram um cofre
selado a sete chaves que nunca ninguém se
lembrou de abrir. E que, desta feita,
por mero capricho, resolvem estoirar de
vez (porque não ?) a dinamite. Tampa
aberta, descobrem lá no fundo um manuscrito.
Já se sabe qual.
Cem anos depois, publica-se o último
romance de Verne que talvez tenha
sido o primeiro. O romance maldito e
quase auto-biográfico que o afastou da
escrita da Ficção Científica. Fala-nos
de Paris mágica, nesse futuro então
distante dos anos sessenta, uma Paris
iluminada pela electricidade e electromagnetismo,
uma capital entregue ao culto da ciência e
tecnologia, transformada num imenso porto
marítimo, ligado ao gigantesco farol
Grenoble por um canal artificial. Metros
suspensos e automatizados, automóveis
individuais, silenciosos e não poluentes
movidos a hidrogénio, enfim, uma utopia
onde daria gosto viver-se, não fossem as
ciências mecânicas terem o direito de
cidade e os poetas e escritores estarem
reduzidos à miséria e ao ridículo. De facto,
a população toda ela alfabetizada, não
consegue ler outra coisa senão manuais
técnicos. A desculturização tornou-se
realidade.
"Ninguém acreditava na sua profecia?"
Ai, Sr. Hetzel, ao descrever esta era
de pósliteratos, onde os romances ganham
bolor nas estantes poeirentas das livrarias,
nunca Verne foi tão profético....