HomePage > Crónicas > C7nema > Hayao Miyazaki 13:19 - 05 Sep 2010
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Hayao Miyazaki
Hayao Miyazaki

Há quem o chame de “Walt Disney japonês”. Ele odeia essa descrição. Amante da cultura anglófona, odeia cerimónias de entregas de prémios e só esteve presente em Veneza para receber o prémio de carreira pois era algo certo. Venceu um Oscar, mas não o recebeu. “Se perdesse não iria bater palmas e fingir que estava satisfeito por ter perdido um prémio”, afirmou.

Ele é Hayao Miyazaki, uma verdadeiro mestre na arte do anime, que vai conquistando os públicos ocidentais com as suas narrativas imaginativas e personagens que fogem a estereótipos.

Nascido no bairro Akebono, subdistrito Bunkyo, na cidade de Tóquio, a 5 de Janeiro de 1941, Hayao Miyazaki é filho de um empregado de uma fábrica de aviões, propriedade de um seu tio. Há quem diga que muitas das referências da obra de Miyazaki à aviação estão ligadas a este negócio de família. Mas as influências não estão só aqui. Shirou Miyazaki, irmão mais novo do animador, uma vez comentou que a personagem Dola de “Castle in the Sky”, o fazia lembrar a sua mãe, não pelo toque visual, mas pela personalidade.

Devido à II Guerra Mundial, Miyazaki e sua família tiveram de se mudar, levando a que o jovem estudasse em diversas escolas. O regresso a Tóquio deu-se em 1951 e anos mais tarde ele terminaria o ensino elementar. Este foi talvez o pior período da vida de Hayao, pois a sua mãe sofreu uma grave doença que a deixou incapacitada numa cama durante 9 anos. Muitos críticos consideram que “Totoro”, uma obra de Miyazaki, é no fundo um trabalho autobiográfico e uma homenagem a essa má fase da sua vida.

O gosto pela animação

É em 1958, durante o último ano de estudos, que a vida de Miyazaki vai mudar. Assiste à primeira longa-metragem colorida do Japão (“Hakuja Den” de Yabushita Taiji) e fica interessado na animação. A sua experiência com o desenho resumia-se a pequenos rascunhos de aviões (influenciado pelo trabalho do pai). E pessoas? Miyazaki nunca se ocupara muito a desenhar pessoas, e isso causava-lhe alguma preocupação.

Após terminar a universidade, onde se formou em Ciências Políticas e Economia (fazendo também parte de algo parecido com um clube de fãs de banda-desenhada), Miyazaki começa a trabalhar na Toei Animation, onde em 1963, e após meses de preparação, dá os primeiros passos no mundo da animação. É lá que colabora em séries como “Wolf Boy Ken” e se envolve na elaboração de “Prince of the Sun”, um trabalho que levou três anos a ser concretizado.

É após a sua saída da Toei, em 1971, e depois de ter trabalhado em “Puss in Boots” e “The Flying Ghost Ship”, que Hayao se junta a Isao Takahata e Yoichi Otabe na produtora A-Pro. Aqui começa um novo período na vida do animador, passando muito do seu tempo em viagens em busca de inspiração e de obras passíveis de serem transpostas para o papel.

Os seus primeiros créditos na realização, ainda que partilhada, com Takahata, surgiram na versão para TV de "Lupin III" em 1971, prosseguindo até 1972. Mas apenas dois anos depois, em 1973, o trio Miyazaki/Takahata/Otabe abandona a A-Pro, entrando na Zuiyo Pictures. É já neste trabalho que Miyazaki volta a viajar para se inspirar e desenvolver os cenários de “Heidi: Girl of the Alps”. Dois anos depois, o destino foi a Itália e a Argentina, de maneira a preparar-se para “Three Thousand Miles in Search of Mother” (“Marco”, o rapazinho que procurava a mãe). “A Dog of Flanders”, “Rascal the Raccoon” e “Anne of Green Gables” (“Ana dos Cabelos Ruivos”) são outros trabalho desenvolvidos com a colaboração de Miyazaki, estando todos envolvidos naquilo a que se chamou “World Masterpiece Theater”, um projecto de adaptação de grandes obras da literatura infantil a anime, que resultou em verdadeiras pérolas da TV japonesa e que conquistou fãs por todo o mundo.

Os Filmes

Em 1978, Hayao ganha o direito de realizar a sua primeira série de TV, que se tornou um grande sucesso, conhecido em Portugal como “Conan – O Rapaz do Futuro”. Nesta série, a humanidade enfrenta a ameaça de extinção: uma arma ultra-magnética destruiu metade do Mundo num só instante. A crosta terrestre foi agitada por movimentos maciços, a Terra desviada do seu eixo, e os cinco continentes completamente divididos e afundados nas profundezas do mar... Um grande número de pessoas tentou fugir para o espaço, sem sucesso. As suas naves foram forçadas a regressar à terra, e com seu desaparecimento todas as esperanças arrasadas. Mas uma conseguiu escapar à destruição, despenhou-se numa pequena e escassa ilha que sobreviveu miraculosamente à devastação. 20 anos depois, só Conan e o seu avó adoptivo estão vivos. Conan nasceu e cresceu na ilha. Ele foi uma nova vida no deserto, um raio de luz na escuridão... E é então que a história começa.

Conan The Castle of Cagliostro

Um ano depois, Hayao realiza a sua primeira longa-metragem: (“Rupan sansei: Kariosutoro no shiro”), “The Castle of Cagliostro”, e participa ainda na animação de “Sherlock Hound”, uma versão dos contos de Sherlock Holmes, onde a personagem principal era um cão.

The Castle of Cagliostro” segue Lupin III, o neto do famoso ladrão de casaca francês. Ele e seus amigos, Jigen e Goemon, alinham em muitas aventuras de forma a conquistar grandes tesouros pelo mundo fora. A bela Fujiko pode ser uma aliada ou inimiga de Lupin, e o inspector Zenigata não descansa enquanto não o capturar.

Baseado na série do início dos anos 70, e na igualmente famosa série manga da Monkey Punch, “Lupin III” teve relativo sucesso, explodindo o nome de Hayao definitivamente em 1984 com "Nausicaä of the Valley of the Wind".

"Nausicaä" é uma aventura que mostra muitas das tendências que iriam surgir nos filmes seguintes de Miyazaki. Em primeiro lugar, o autor não cai no erro típico de estereotipar os seus vilões, demonstrando também uma preocupação ecológica e um fascínio pela aviação – que vem, como já dissemos do “negócio familiar”.

Adaptado a partir de uma manga com o mesmo nome – criada quase por obrigação para apresentar o mundo do filme – foi após este filme que Miyazaki se juntou de vez com Isao Takahata e fundou o Studio Ghibli.

Nausicaa Castle in the Sky

Tratando-se da primeira produção oficial dos Estúdios Ghibli, “Tenkû no shiro Rapyuta” (“Laputa: Castle In The Sky”, de 1986) conta a aventura de uma jovem (Sheeta) que cai do céu directamente nos braços de Pazu, um menino. Com ela vai também uma pedra misteriosa, que basicamente é a chave de todo o enredo. Mas muitos perigos e vários seres desejam a pedra e não tarda nada até que piratas do ar e militares, obcecados por Laputa, um reino lendário numa ilha flutuante, tentem recuperar o que Sheeta transporta.

Filme muito interessante (“Tonari no Totoro”), conta a história de duas meninas (Mei e Satsuki) que se mudam para o interior para ficarem mais perto da sua mãe – doente num hospital. É aí, nas florestas circundantes, que elas acabam por conhecer Totoro, o espírito da floresta.

Como já dissemos acima, muitos críticos consideram que esta obra foi inspirada na vida de Miyazaki e na doença que afectou a sua mãe e a colocou 9 anos numa cama.

Apesar de ser uma obra pouco conhecida, esta é sem dúvida umas das mais marcantes do animador.

My Neighbor Totoro Kiki's Delivery Service

Baseado no livro homónimo de Eiko Kadono, esta animação de 1989 (“Majo no takkyûbin”), conta a história de Kiki, uma menina de treze anos que tem de sair de casa e enfrentar o mundo sozinha, como parte do seu treino de bruxa. Acompanhada pelo seu gato Jiji, uma confiante Kiki instala-se na bela Korico, uma cidade ficcional à beira mar, inspirada nas cidades do norte da Europa. Obrigada a adaptar-se a uma cidade e vida novas, a teimosa mas desembaraçada Kiki inicia um serviço de entregas, aproveitando a sua capacidade de voar.

A animação muito rica em detalhes de Miyazaki serve a história de Kiki de forma encantadora, uma história que não perde de vista os temas caros dos filmes do realizador: magia e crescimento.

Um dos filmes mais estranhos de Hayao Miyazaki, “Kurenai no buta” é um filme de aventuras histórico sobre um piloto transformado em porco por uma maldição. Na Itália dos anos 30, “Porco Rosso”, parte homem, parte porco, é um talentoso piloto, que ganha a vida como piloto em missões arriscadas, envolvendo-se em situações cómicas com seu rival americano, Curtis, enquanto procura retomar a forma humana e conquistar Gina.

A reconstituição histórica e as cenas aéreas permitem a Miyazaki, cujo amor por aviões antigos é bem conhecido, fazer uma animação muito pormenorizada e realista, numa história muito europeia, apesar de não faltar o elemento “mágico” da maldição.

Crimson Pig Princess Mononoke

«Mononoke Hime» (“Princess Mononoke”) bateu todos os recordes de bilheteira quando estreou no Japão em 1997, mas demorou mais de dois anos a chegar ao resto do mundo, pela mão da Disney/Miramax, e a conquistar a atenção do público e crítica ocidentais.

Com uma história fortemente baseada na mitologia japonesa, inovadora em animação pela sua complexidade e por ser dirigida sobretudo a adultos, “Mononoke Hime” chamou a atenção a todos os que não conheciam (ou reconheciam) o trabalho de Miyazaki, pela sua excelência a todos os níveis.

Passada na era Muromach (1333-1568), no Japão, a história segue o príncipe Ashitaka até Tataraba, a Cidade do Ferro, em busca da cura para a maldição que lhe foi infligida por um dos deuses da floresta. A sua única esperança para quebrar a maldição é encontrar a fonte do mal que transformou o deus-javali, levando-o a atacar a população. Mas Ashitaka vai ficar no meio de uma terrível batalha entre os deuses e animais da floresta e os habitantes da cidade mineira que exploram e destroem a floresta. A liderar os animais da floresta está uma rapariga criada por lobos, a princesa Mononoke. E Shishi-Gami, o deus da floresta que tem o poder de o curar é ameaçado por um grupo de homens em busca da imortalidade.

As personagens de “Mononoke- Hime” são complexas, têm interesses e objectivos conflituosos, mas justificáveis. Os deuses da floresta e San querem acabar com a interferência humana na floresta, mas os habitantes da cidade querem garantir a prosperidade que depende dos recursos que têm disponíveis. É um filme que fala de compromissos e equilíbrios.

A animação é belíssima, não se furtando a algumas cenas mais violentas, e a música serve na perfeição a história do filme, sobretudo nos momentos de maior tensão. Um marco na história da animação, que abriu caminho para que o filme seguinte de Miyazaki ganhasse o Oscar para Melhor Filme de Animação.

Visualmente fabuloso ("Sen to Chihiro no kamikakushi"), este filme detém uma alma ímpar e consegue desde a primeira intervenção de Chihiro fazer-nos apaixonar perdidamente pela personagem. Os mundos, a ideia, o entrosamento das personagens e da história são geniais. Produzido por pouco mais de 19 milhões de dólares, e seguindo a animação tradicional, esta película segue uma jovem menina e seus pais que vão viver para uma nova localidade nos subúrbios rurais japoneses. Durante a sua longa viagem, eles perdem-se e vão dar a um local misterioso que logo à partida Chihiro teme. Aí começa a aventura. Ruas desertas e comida à descrição levam os pais de Chihiro, sem nunca perceberem o porquê, a transformar-se em porcos. Entretanto, já caiu a noite. O mundo real apaga-se e entramos no mundo dos espíritos. Começa então a brilhar a imaginação de Myazaki e há uma maldição que tem de ser quebrada.

Dos espaços às personagens, passando pelos espíritos – essa tão nobre perdição asiática - o que mais impera é a forma da criação e a apresentação de todo este gigantesco mundo - que nos fascina desde o primeiro desenho.

Mas mais importante que tudo isto, é a “alma” que Myazaki consegue dar às suas personagens. Neste aspecto, são todas riquíssimas e levam-nos a interagir emocionalmente com todas elas logo à partida. Um grande filme que certamente apaixonará adultos e miúdos e que, a nosso ver, é uma das obras-primas da animação. Absolutamente imperdível...

Spirited Away Howl's Moving Castle

Hauru no ugoku shiro” (“Howl’s Moving Castle”), o novo filme de Miyazaki, é uma história de amor deliciosamente fantasiosa, ingénua e bonita. Baseado num romance de Diana Wynne Jones, “Howl’s” conta como Sophie, uma jovem transformada em velha pela Bruxa do Nada, se refugia no castelo de Howl, o feiticeiro, e as suas aventuras no castelo andante, com a companhia de um espantalho, um aprendiz de feiticeiro e uma chama irrequieta. E ainda há qualquer coisa sobre uma bruxa má e uma guerra injusta.

Em “Howl’s”, segundo o produtor do filme, Toshio Suzuki, muitos dos elementos foram retirados do livro da autora inglesa, por exemplo Sophie, o castelo e a Bruxa do Nada, ou ainda a atmosfera das vilas, aldeias e cidades. Mas encontramos também os ingredientes que os filmes anteriores de Miyazaki desenvolveram: a magia (aqui mais longe da cultura japonesa), as preocupações ambientais e sociais, expressas na destruição e caos provocados pela guerra inútil, e a viagem de crescimento interior das personagens. Aliás, não há verdadeiros vilãos em “Howl’s” pois as personagens não são simplesmente boas ou más e atravessam processos de crescimento e mudança. A jovem e tímida Shopie, o egoísta e covarde Howl, ou a mesmo a pérfida Bruxa do nada, todos vão chegar ao fim do filme diferentes.

Visualmente, “Howl’s” é extremamente cativante, mais alegre que os anteriores filmes, estimulante devido à profusão de elementos incríveis, como o castelo de Howl e sua porta mágica, mas sempre harmonioso. Também as personagens de “Howl’s” estão certamente entre as mais encantadoras de Miyazaki, com “secundários” deliciosos como Calcifer, Markl e Hen. E depois há o romance entre Sophie e Howl, que se adivinha desde o princípio mas que vai crescendo devagarinho, até o amor se afirmar como a força redentora das personagens.

Mais ocidental que “Spirited Away”, menos comprometido que “Princess Mononoke”, “Howl’s Moving Castle” é confuso mas extremamente belo, sonhador, deliciosamente disperso. Encantador.

  Depois de afirmar que “Spirited Away” seria o seu último filme, Hayao Miyazaki foi forçado a pegar em “Howl’s” quando Mamoru Hosoda abandonou o projecto. Apesar de ter declarado novamente que não voltaria à realização, só podemos esperar Miyazaki mude rapidamente de ideias. Realizador de culto para muitos, os seus filmes trazem magia e beleza ao quotidiano de crianças e adultos.

Jorge Pereira
11.2005
 
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