Há quem o chame de “Walt Disney japonês”. Ele
odeia essa descrição. Amante da cultura anglófona,
odeia cerimónias de entregas de prémios e só
esteve presente em Veneza para receber o prémio
de carreira pois era algo certo. Venceu um Oscar,
mas não o recebeu. “Se perdesse não iria bater
palmas e fingir que estava satisfeito por ter
perdido um prémio”, afirmou.
Ele é Hayao Miyazaki, uma verdadeiro mestre na
arte do anime, que vai conquistando os públicos
ocidentais com as suas narrativas imaginativas
e personagens que fogem a estereótipos.
Nascido no bairro Akebono, subdistrito Bunkyo,
na cidade de Tóquio, a 5 de Janeiro de 1941,
Hayao Miyazaki é filho de um empregado de uma
fábrica de aviões, propriedade de um seu tio.
Há quem diga que muitas das referências da obra
de Miyazaki à aviação estão ligadas a este
negócio de família. Mas as influências não
estão só aqui. Shirou Miyazaki, irmão mais
novo do animador, uma vez comentou que a
personagem Dola de “Castle in the Sky”, o
fazia lembrar a sua mãe, não pelo toque visual,
mas pela personalidade.
Devido à II Guerra Mundial, Miyazaki e sua
família tiveram de se mudar, levando a que
o jovem estudasse em diversas escolas. O
regresso a Tóquio deu-se em 1951 e anos mais
tarde ele terminaria o ensino elementar. Este
foi talvez o pior período da vida de Hayao, pois
a sua mãe sofreu uma grave doença que a deixou
incapacitada numa cama durante 9 anos. Muitos
críticos consideram que “Totoro”, uma obra de
Miyazaki, é no fundo um trabalho autobiográfico
e uma homenagem a essa má fase da sua vida.
O gosto pela animação
É em 1958, durante o último ano de estudos, que
a vida de Miyazaki vai mudar. Assiste à primeira
longa-metragem colorida do Japão (“Hakuja Den”
de Yabushita Taiji) e fica interessado na animação.
A sua experiência com o desenho resumia-se a
pequenos rascunhos de aviões (influenciado pelo
trabalho do pai). E pessoas? Miyazaki nunca se
ocupara muito a desenhar pessoas, e isso
causava-lhe alguma preocupação.
Após terminar a universidade, onde se formou
em Ciências Políticas e Economia (fazendo também
parte de algo parecido com um clube de fãs de
banda-desenhada), Miyazaki começa a trabalhar
na Toei Animation, onde em 1963, e após meses
de preparação, dá os primeiros passos no mundo
da animação. É lá que colabora em séries como
“Wolf Boy Ken” e se envolve na elaboração de
“Prince of the Sun”, um trabalho que levou três
anos a ser concretizado.
É após a sua saída da Toei, em 1971, e depois
de ter trabalhado em “Puss in Boots” e “The
Flying Ghost Ship”, que Hayao se junta a Isao
Takahata e Yoichi Otabe na produtora A-Pro. Aqui
começa um novo período na vida do animador,
passando muito do seu tempo em viagens em
busca de inspiração e de obras passíveis de
serem transpostas para o papel.
Os seus primeiros créditos na realização,
ainda que partilhada, com Takahata, surgiram
na versão para TV de "Lupin III" em 1971,
prosseguindo até 1972. Mas apenas dois anos depois,
em 1973, o trio Miyazaki/Takahata/Otabe abandona
a A-Pro, entrando na Zuiyo Pictures. É já neste
trabalho que Miyazaki volta a viajar para se
inspirar e desenvolver os cenários de “Heidi:
Girl of the Alps”. Dois anos depois, o destino
foi a Itália e a Argentina, de maneira a
preparar-se para “Three Thousand Miles in Search
of Mother” (“Marco”, o rapazinho que procurava
a mãe). “A Dog of Flanders”, “Rascal the Raccoon”
e “Anne of Green Gables” (“Ana dos Cabelos
Ruivos”) são outros trabalho desenvolvidos com
a colaboração de Miyazaki, estando todos envolvidos
naquilo a que se chamou “World Masterpiece
Theater”, um projecto de adaptação de grandes
obras da literatura infantil a anime, que resultou
em verdadeiras pérolas da TV japonesa e que
conquistou fãs por todo o mundo.
Os Filmes
Em 1978, Hayao ganha o direito de realizar a sua
primeira série de TV, que se tornou um grande
sucesso, conhecido em Portugal como “Conan – O
Rapaz do Futuro”. Nesta série, a humanidade enfrenta
a ameaça de extinção: uma arma ultra-magnética
destruiu metade do Mundo num só instante. A crosta
terrestre foi agitada por movimentos maciços, a
Terra desviada do seu eixo, e os cinco continentes
completamente divididos e afundados nas profundezas
do mar... Um grande número de pessoas tentou fugir
para o espaço, sem sucesso. As suas naves foram
forçadas a regressar à terra, e com seu desaparecimento
todas as esperanças arrasadas. Mas uma conseguiu
escapar à destruição, despenhou-se numa pequena
e escassa ilha que sobreviveu miraculosamente à
devastação. 20 anos depois, só Conan e o seu avó
adoptivo estão vivos. Conan nasceu e cresceu na
ilha. Ele foi uma nova vida no deserto, um raio
de luz na escuridão... E é então que a história começa.
Um ano depois, Hayao realiza a sua primeira
longa-metragem: (“Rupan sansei: Kariosutoro no shiro”),
“The Castle of Cagliostro”, e
participa ainda na animação de “Sherlock Hound”,
uma versão dos contos de Sherlock Holmes, onde a
personagem principal era um cão.
“The Castle of Cagliostro” segue Lupin III, o
neto do famoso ladrão de casaca francês. Ele e
seus amigos, Jigen e Goemon, alinham em muitas
aventuras de forma a conquistar grandes tesouros
pelo mundo fora. A bela Fujiko pode ser uma
aliada ou inimiga de Lupin, e o inspector Zenigata
não descansa enquanto não o capturar.
Baseado na série do início dos anos 70, e na
igualmente famosa série manga da Monkey Punch,
“Lupin III” teve relativo sucesso, explodindo
o nome de Hayao definitivamente em 1984 com
"Nausicaä of the Valley of the Wind".
"Nausicaä" é uma aventura que mostra muitas das
tendências que iriam surgir nos filmes seguintes
de Miyazaki. Em primeiro lugar, o autor não cai
no erro típico de estereotipar os seus vilões,
demonstrando também uma preocupação ecológica
e um fascínio pela aviação – que vem, como já
dissemos do “negócio familiar”.
Adaptado a partir de uma manga com o mesmo nome
– criada quase por obrigação para apresentar o
mundo do filme – foi após este filme que Miyazaki
se juntou de vez com Isao Takahata e fundou o
Studio Ghibli.
Tratando-se da primeira produção oficial dos
Estúdios Ghibli, “Tenkû no shiro Rapyuta” (“Laputa:
Castle In The Sky”, de 1986) conta a aventura de
uma jovem (Sheeta) que cai do céu directamente nos
braços de Pazu, um menino. Com ela vai também uma
pedra misteriosa, que basicamente é a chave de todo
o enredo. Mas muitos perigos e vários seres desejam
a pedra e não tarda nada até que piratas do ar e
militares, obcecados por Laputa, um reino lendário
numa ilha flutuante, tentem recuperar o que
Sheeta transporta.
Filme muito interessante (“Tonari no Totoro”), conta a história de duas
meninas (Mei e Satsuki) que se mudam para o interior
para ficarem mais perto da sua mãe – doente num
hospital. É aí, nas florestas circundantes, que
elas acabam por conhecer Totoro, o espírito da floresta.
Como já dissemos acima, muitos críticos consideram
que esta obra foi inspirada na vida de Miyazaki e
na doença que afectou a sua mãe e a colocou 9 anos
numa cama.
Apesar de ser uma obra pouco conhecida, esta é sem
dúvida umas das mais marcantes do animador.
Baseado no livro homónimo de Eiko Kadono, esta
animação de 1989 (“Majo no takkyûbin”),
conta a história de Kiki, uma
menina de treze anos que tem de sair de casa e
enfrentar o mundo sozinha, como parte do seu
treino de bruxa. Acompanhada pelo seu gato Jiji,
uma confiante Kiki instala-se na bela Korico,
uma cidade ficcional à beira mar, inspirada nas
cidades do norte da Europa. Obrigada a adaptar-se
a uma cidade e vida novas, a teimosa mas
desembaraçada Kiki inicia um serviço de entregas,
aproveitando a sua capacidade de voar.
A animação muito rica em detalhes de Miyazaki
serve a história de Kiki de forma encantadora,
uma história que não perde de vista os temas
caros dos filmes do realizador: magia e crescimento.
Um dos filmes mais estranhos de Hayao Miyazaki,
“Kurenai no buta” é um filme de aventuras histórico
sobre um piloto transformado em porco por uma
maldição. Na Itália dos anos 30, “Porco Rosso”,
parte homem, parte porco, é um talentoso piloto,
que ganha a vida como piloto em missões arriscadas,
envolvendo-se em situações cómicas com seu rival
americano, Curtis, enquanto procura retomar a
forma humana e conquistar Gina.
A reconstituição histórica e as cenas aéreas
permitem a Miyazaki, cujo amor por aviões antigos
é bem conhecido, fazer uma animação muito pormenorizada
e realista, numa história muito europeia, apesar
de não faltar o elemento “mágico” da maldição.
«Mononoke Hime» (“Princess Mononoke”) bateu todos
os recordes de bilheteira quando estreou no Japão
em 1997, mas demorou mais de dois anos a chegar ao
resto do mundo, pela mão da Disney/Miramax, e a
conquistar a atenção do público e crítica ocidentais.
Com uma história fortemente baseada na mitologia
japonesa, inovadora em animação pela sua complexidade
e por ser dirigida sobretudo a adultos, “Mononoke
Hime” chamou a atenção a todos os que não conheciam
(ou reconheciam) o trabalho de Miyazaki, pela sua
excelência a todos os níveis.
Passada na era Muromach (1333-1568), no Japão, a
história segue o príncipe Ashitaka até Tataraba,
a Cidade do Ferro, em busca da cura para a maldição
que lhe foi infligida por um dos deuses da floresta.
A sua única esperança para quebrar a maldição é
encontrar a fonte do mal que transformou o deus-javali,
levando-o a atacar a população. Mas Ashitaka vai ficar
no meio de uma terrível batalha entre os deuses e
animais da floresta e os habitantes da cidade mineira
que exploram e destroem a floresta. A liderar os
animais da floresta está uma rapariga criada por
lobos, a princesa Mononoke. E Shishi-Gami, o deus
da floresta que tem o poder de o curar é ameaçado
por um grupo de homens em busca da imortalidade.
As personagens de “Mononoke- Hime” são complexas, têm
interesses e objectivos conflituosos, mas justificáveis.
Os deuses da floresta e San querem acabar com a
interferência humana na floresta, mas os habitantes
da cidade querem garantir a prosperidade que depende
dos recursos que têm disponíveis. É um filme que fala de
compromissos e equilíbrios.
A animação é belíssima, não se furtando a algumas cenas
mais violentas, e a música serve na perfeição a história
do filme, sobretudo nos momentos de maior tensão. Um marco
na história da animação, que abriu caminho para que o
filme seguinte de Miyazaki ganhasse o Oscar para Melhor
Filme de Animação.
Visualmente fabuloso ("Sen to Chihiro no kamikakushi"),
este filme detém uma alma ímpar
e consegue desde a primeira intervenção de Chihiro
fazer-nos apaixonar perdidamente pela personagem. Os
mundos, a ideia, o entrosamento das personagens e da
história são geniais. Produzido por pouco mais de 19
milhões de dólares, e seguindo a animação tradicional,
esta película segue uma jovem menina e seus pais que vão
viver para uma nova localidade nos subúrbios rurais
japoneses. Durante a sua longa viagem, eles perdem-se
e vão dar a um local misterioso que logo à partida Chihiro
teme. Aí começa a aventura. Ruas desertas e comida à
descrição levam os pais de Chihiro, sem nunca perceberem
o porquê, a transformar-se em porcos. Entretanto, já
caiu a noite. O mundo real apaga-se e entramos no mundo
dos espíritos. Começa então a brilhar a imaginação de
Myazaki e há uma maldição que tem de ser quebrada.
Dos espaços às personagens, passando pelos espíritos
– essa tão nobre perdição asiática - o que mais impera
é a forma da criação e a apresentação de todo este
gigantesco mundo - que nos fascina desde o primeiro
desenho.
Mas mais importante que tudo isto, é a “alma” que
Myazaki consegue dar às suas personagens. Neste aspecto,
são todas riquíssimas e levam-nos a interagir emocionalmente
com todas elas logo à partida. Um grande filme que
certamente apaixonará adultos e miúdos e que, a nosso
ver, é uma das obras-primas da animação. Absolutamente
imperdível...
“Hauru no ugoku shiro” (“Howl’s Moving Castle”), o
novo filme de Miyazaki, é uma história de amor deliciosamente
fantasiosa, ingénua e bonita. Baseado num romance de
Diana Wynne Jones, “Howl’s” conta como Sophie, uma jovem
transformada em velha pela Bruxa do Nada, se refugia no
castelo de Howl, o feiticeiro, e as suas aventuras no
castelo andante, com a companhia de um espantalho, um
aprendiz de feiticeiro e uma chama irrequieta. E ainda
há qualquer coisa sobre uma bruxa má e uma guerra injusta.
Em “Howl’s”, segundo o produtor do filme, Toshio Suzuki,
muitos dos elementos foram retirados do livro da autora
inglesa, por exemplo Sophie, o castelo e a Bruxa do Nada,
ou ainda a atmosfera das vilas, aldeias e cidades. Mas
encontramos também os ingredientes que os filmes anteriores
de Miyazaki desenvolveram: a magia (aqui mais longe da
cultura japonesa), as preocupações ambientais e sociais,
expressas na destruição e caos provocados pela guerra
inútil, e a viagem de crescimento interior das personagens.
Aliás, não há verdadeiros vilãos em “Howl’s” pois as
personagens não são simplesmente boas ou más e
atravessam processos de crescimento e mudança. A
jovem e tímida Shopie, o egoísta e covarde Howl,
ou a mesmo a pérfida Bruxa do nada, todos vão chegar
ao fim do filme diferentes.
Visualmente, “Howl’s” é extremamente cativante, mais
alegre que os anteriores filmes, estimulante devido à
profusão de elementos incríveis, como o castelo de
Howl e sua porta mágica, mas sempre harmonioso.
Também as personagens de “Howl’s” estão certamente
entre as mais encantadoras de Miyazaki, com
“secundários” deliciosos como Calcifer, Markl
e Hen. E depois há o romance entre Sophie e Howl,
que se adivinha desde o princípio mas que vai
crescendo devagarinho, até o amor se afirmar
como a força redentora das personagens.
Mais ocidental que “Spirited Away”, menos
comprometido que “Princess Mononoke”, “Howl’s
Moving Castle” é confuso mas extremamente belo,
sonhador, deliciosamente disperso. Encantador.
Depois de afirmar que “Spirited Away” seria o
seu último filme, Hayao Miyazaki foi forçado a
pegar em “Howl’s” quando Mamoru Hosoda abandonou
o projecto. Apesar de ter declarado novamente que
não voltaria à realização, só podemos esperar
Miyazaki mude rapidamente de ideias. Realizador
de culto para muitos, os seus filmes trazem
magia e beleza ao quotidiano de crianças e adultos.