Grandes autores e o tema da paternidade marcaram as
tendências desta edição em que o vencedor foi 'L'Enfant'
dos irmãos Dardenne, com o aval do júri presidido por
Emir Kusturica. Os filmes portugueses na 'Quinzena dos
Realizadores' ultrapassaram todas as expectativas, pois
para além de um amplo destaque na imprensa internacional,
arrancaram os prémios ligados à inovação, singularidade e
juventude. Afinal o cinema português (ainda) tem futuro.
Elevada qualidade a nível da Competição marca em primeiro
lugar esta edição 2005. A começar por Caché, de Michael
Haneke (Prémio de Realização), protagonizado por Daniel
Auteil e Juliette Binoche, qu eé um thriller bem
estruturado, sobre o insidioso efeito que provoca
numa família parisiense a recepção de cassetes anónimas
sobre o seu quotidiano. São os finais abertos de Haneke
talvez a razão que torna o seu cinema menos acessível
ao grande público. Broken Flowers, de Jim Jarmuch
(Grande Prémio), é uma charmosa comédia agridoce com
Bill Murray novamente numa grande interpretação, no seu
estilo minimalista e de expressividade silenciosa, dando
rosto a um D. Juan de meia-idade que enceta uma viagem
à procura de um filho desconhecido. Além de Murray,
debutam um elenco notável de actrizes, Sharon Stone,
Jessica Lange, Tilda Swinton, Chloe Sevigny, Julie Delpy,
e o actor Jeffrey Wright. Os irmãos Dardenne regressaram
à competição novamente para ganhar (Rosetta foi Palma
de Ouro em 1999), com L'Enfant, mais um filme de matriz
sociológica, acerca de um jovem casal de adolescentes
que rejeita a paternidade (Palma de Ouro 2005).
REGRESSO DOS CONSAGRADOS
Estiveram na competição um conjunto de realizadores que,
não tendo sido premiados, apresentaram obras marcantes.
Primeiro David Cronenberg, com o seu A History of Violence,
sobre a história de uma família ameaçada pela violência,
desfazendo a sua harmonia e bem-estar, com Viggo Mortensen
e Maria Bello. Um grande ensaio sobre a violência e um
filme preferido do público segundo a sondagem da Mediatrie.
Lars Von Trier regressou também Manderlay, mais uma
provocação anti-americana e sequela de Dogville, agora
centrada na questão da escravatura, na discriminação racial
e na pena de morte. Novamente o hangar, com marcações no
chão, serviu de plateau a um elenco que tem na generalidade
a continuidade dos mesmos de Dogville, Jean-Marc Barr,
Lauren Bacall, ao qual se juntaram William Dafoe, Danny Glover,
Isaach de Bankolé, mas com a principal excepção da protagonista
Grace, interpretada agora pela jovem Bryce Dallas Howard
(A Vila). Depois da Palma de Ouro de há dois anos com
Elephant, Gus Van Sant, regressou com Last Days, um registo
subtil do calvário de um músico inspirado no rocker Kurt
Cobain, líder dos Nirvana, e interpretado visceralmente
por Michael Pitt. veteranos nestas andanças e na Competição,
o israelita Amos Gitai apresentou Free Zone, um ensaio
sobre a convivência entre as culturas e os conflitos no
Médio Oriente, protagonizado por três mulheres: uma
americana (Natalie Portman), uma israelita (Hana Laszlo,
Prémio de Interpretação Feminina) e uma palestiniana
(Hiyam Abbas), e Wim Wenders, com Don't Came Knocking,
que com Sam Shepard regressa às paisagens do Midwest
Americano para contar um terna história de reencontro
de um decadente actor de westerns com as suas raízes
e descendência.
DECEPÇÕES e PRETENSÕES
Apresentado na imprensa francesa antes do início do Festival,
com pretensões a génio, regressou o mexicano Carlos Reygadas
(Japon), com o seu Batalla en el Cielo, um filme muito
questionado pela arriscada representação sexual dos actores
(Anapola Mushkadiz, Marcos Hernadez, Berta Ruiz), numa
história que mistura crime, rapto de crianças e as libertinagens
de uma menina rica com o seu motorista. A competição deu
lugar ainda algumas decepções: Dominik Moll (Harry, Um
Amigo Ao Seu Dispor), com Lemming, uma abertura académica
onde se salva a interpretação de Charlotte Rampling; Johnny
To, o incansável realizador de Hong Kong, expôs em Election,
uma versão apressada de um filme de gangsters na escolha de
um líder no seio das tríades chinesas, que remete para a
trilogia O Padrinho. Tal como em O Padrinho, espera-se um
sequela para breve. O canadiano Atom Egoyan, em Where the
Truth Lies, não conseguiu mais do que arrancar duas excelentes
interpretações a Kevin Bacon e Colin Firth e, pelo contrário,
uma má escolha de Alison Lohmann, no papel da jornalista que
investiga a estranha separação de uma dupla célebre de stand
up comedy dos anos 70. Marco Tullio Giordana (A Melhor
Juventude), em Quando Sei Nato Non Poui Più Nasconderti,
apresentou um filme onde as boas intenções não chegam, tal
como o coreano Hong Sang-soo (La Femme Est l'Avenir de L'Homme),
com Conte de Cinéma, duas histórias de cinema, dentro do
cinema confusas em termos narrativos.
NOVATOS E PEQUENOS
Tommy Lee Jones (Prémio de Melhor Interpretação Masculina)
foi o responsável por uma das melhores longas-metragens a
concurso, e na interpretação de The Three Burials of Melquiades
Estrada. O argumento de Guillermo Arriaga (21 Gramas) é
magnífico, numa história de crime e redenção na fronteira
entre o México e os EUA, e valeu-lhe também o prémio na
categoria. O arménio Hiner Salem (Vodka Lemon), com Kilomètro
Zero, não chegou a ser uma desilusão num filme centrado na
relação de dois homens, um curdo e um iraquiano em pleno
conflito Irão-Iraque em 1988. Nos filmes orientais e de
produção mais pequena, notas para Shangai Dreams (Prémio
do Júri), a confirmação de Wang Xiaoshuai (Bicicleta de
Pequim) com um dos melhores realizadores chineses da nova
geração, Three Times, de Hou Hsiao-hsien (Millenium Mambo),
de Taiwan, e de Bashing, do japonês Masahiro Koayashi,
filmes que demonstram bem a vitalidade do cinema asiático
e uma presença forte nos festivais internacionais. Por
último, Peindre ou Faire L'Amour, dos francese Arnaud
e Jean-Marie Larrieu, uma subtil comédia de costumes
sobre swing, protagonizado por Daniel Auteuil, Sabine
Azéma, Amira Casar e Sergi López, que aparece um pouco
descontextualizado nesta competição.
ESPECTÁCULOS e DOC's
Obviamente Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith
foi um espectáculo mediático fora e dentro do ecrã no dia
da sua estreia mundial. Embora em menor dimensão, o
espectáculo começou antes com Match Point, de Woody Allen,
um thriller que cruza o universo de Hitchcock e de Patricia
Highsmith, num regresso do realizador à sua melhor forma,
depois de Crimes e Escapadelas. Rodado em Londres, Match
Point é servido por um fabuloso elenco: Scarlett Johansson,
Jonathan Thys-Meyers, Emily Mortimer e Brian Cox. Em
competição, seria certamente um dos grandes candidatos
à Palma de Ouro. No melhor do cinema coreano, A Bittersweet
Life, de Kim Jee-wonn, é uma história de vingança e acção
dirigida pelo realizador de A Tale Of Two Sisters, que com
Park Chan-wook compõe a 'nova vaga' coreana. Chromophobia,
de Martha Fiennes (Onegin), é um ensaio sociológico sobre
a sociedade britânica e sobre questões contemporâneas tão
prementes e universais como a corrupção na política e nos
negócios, a pedofilia, os limites para o jornalismo de
investigação, com um elenco notável: Ben Chaplin, Penélope
Cruz, Ralph Fienes, Ian Holm, Rhys Ifans, Damian Lewis,
Kristin Scott Thomas. Neste contexto, destaque ainda para
Kiss Kiss, Bang Bang, uma bela homenagem aos filmes negros
da série B com muita acção, escrito e realizado por Shane
Black (o argumentista da saga Arma Mortífera, O Último
Grande Herói), que se estreia atrás das câmaras, fazendo
regressar ao convívio com os espectadores actores como
Robert Downey Jr., Val Kilmer ou a revelação da bela
Michelle Monaghan. Quanto aos documentais, destaque para
Midnight Movies: From the Margin to the Mainstream, de
Stuart Samuels, uma homenagem aos clássicos de meia-noite
(El Topo, Night of the Living Dead, The Harder They Come,
Pink Flamingos, The Rocky Horror Picture Show e Eraserhead),
John Cassavetes, de André S. Labarthe, integrado numa
homenagem ao realizador responsável pelos lançamentos em
DVD de 'Cinéma de Notre Temps', James Dean: Forever Young,
de Michael J. Sheridan, comemorando os 50 anos do falecimento
do actor, e Moments Choisies des Histoire(s) du Cinema, de
Jean-Luc Godard, um documento que antevê uma grande
retrospectiva, programada para o Outono no Centro George
Pompidou em Paris.
UM MUNDO DE CINEMA
É o conceito da secção 'Un Certain Regard', que cresce
ano a ano. Foram apresentados cerca de 21 filmes em
competição, para apreciação de um júri presidido pelo
realizador Alexandre Payne (Sideways), e marcada pela presença
de alguns consagrados como François Ozon, com Le Temps Qui
Reste, o coreano Kim-Ki-duk, com Hwal, e Alain Cavalier,
com Le Filmeur, num ensaio cinematográfico sobre a sua
própria vida e obra. Destaque depois para dois vencedores:
Moartea Domnului Lazarescu, de Cristi Puiu (Prémio 'Un
Certain Regard'), um filme negro sobre o sistema de saúde
na Roménia, e La Terre Abandonnée, um filme do Sri-Lanka,
dirigido por Vimukthi Jayasundara (Câmara de Ouro ex aequo
com Me and You and Everyone We Know, de Miranda July, dos
EUA, da Semana da Crítica), co-produzido pela Contracosta
do produtor português Francisco Vila-Lobos. Revelações
com lugar em breve no circuito comercial são Sangre, do
mexicano Amat Escalante, e os dois independentes norte-americanos,
Down in the Valley, de David Jacobson com Edward Norton,
Evan Rachel Wood, David Morse e Rory Culkin, ou The King,
de James Marsh, com Gael Garcia Bernal e William Hurt.
QUINZENA DOS AUTORES
Uma das obras mais estimulantes desta maratona chama-se
Wolf Creek, do australiano Greg McLean. Trata-se de um
excelente thriller de terror baseado em factos verídicos
e a lembrar um dos grandes clássicos do género: Massacre
no Texas. Na Quinzena dos Realizadores, espaço para um
olhar sobre o cinema coreano com dois filmes 'Made in
Korea': Crying Fist, de Ryoo Seung-wan, sobre a história
de um boxeur, e The President's Last Bang, de Im Sang-soo,
um thriller político baseado em factos verídicos e
sobre o assassinato do presidente da Coreia do Sul em
1979.
LANÇAMENTOS NO MERCADO
A PREMIERE deu a volta ao Mercado, recolheu folhetos,
viu promos e ouviu o buzz sobre algumas novidades possíveis
de estrear em Portugal: Alatriste, de Agustín Díaz Yanes,
a adaptação da novela gráfica do escritor espanhol Arturo
Pérez-Reverte, com Viggo Mortensen, Eduardo Noriega e Elena
Anaya, e 20 centímetros, de Ramón Salazar, um musical de
cores saturadas ao estilo de Almodóvar, no elenco com
Monica Cevera, Najwa Mimri e Rossy de Palma. Do cinema
oriental, as novidades são muitas: The Duelist, do coreano
Lee Myung-Se (uma combinação entre Disponível para Amar e
O Tigre e o Dragão), Everlasting Regret, de Stanley Kwan,
de Hong Kong (a adaptação de um best seller chinês
intitulado Changhen Ge, passado em Xangai entre os anos
40 e 80), The Great Goblin War, do japonês Takeshi Miike,
com a jovem Chiaki Kuriyama (Kill Bill: Vol. 1) numa
versão oriental de Harry Potter, Riding Alone For Thousand
Miles, de Shang Yimou, mais um filme do realizador chinês
na linha de Herói e O Segredo dos Punhais Voadores. Alguns
títulos a reter ainda são Lady Chatterley, de Pascale
Ferran, numa nova adaptação do romance de D. H. Lawrence,
Babel, de Alejandro González Iñárritu, com Cate Blanchett,
Brad Pitt e Gael Garcia Bernal, novamente com uma série
de histórias cruzadas e rodado entre Marrocos, México,
Japão e Tunísia, The Tiger and the Snow, o novo filme de
Roberto Benigni, Flyboys, de Tony Bill, com James Franco
e Jean Reno, sobre os pilotos americanos voluntários em
França na I Guerra Mundial, Hoaz, de Lasse Hallström, com
Richard Gere e Alfred Molina, baseado na história verídica
de Clifford Irving, o homem que convenceu o mundo de que
tinha escrito a biografia autorizada de Howard Hughes,
Tristram Shandy, de Michael Winterbottom, baseado num romance
de Laurence Sterne, com Steve Coogan, Rob Brydon e Gillian
Anderson, The Wind That Shakes the Barley, de Ken Loach,
um épico sobre a Guerra Civil na Irlanda, The World's
Fastest Indian, de Roger Donaldson, com Anthony Hopkins
no papel de Burt Munro, o homem que bateu o recorde de
velocidade em terra em 1962, e por último Paintkillersm
o novo filme de David Cronenberg.
FUTEBOL E CINEMA
Pelé e Maradona estiveram na Croisette em missão diplomática.
O primeiro no lançamento do seu filme biográfico Pelé Eterno,
de Aníbal Massaini, o segundo para apadrinhar o novo
Pavilhão/Auditório 'Cinéma du Monde'. O presidente do
Júri, Emir Kusturica, para dar largas à sua paixão pelo
futebol, anunciou vir a dirigir um documentário sobre 'El Pibe'.
Neste Mercado do Filme, os dois maiores espectáculos e
indústrias do mundo estiveram de mãos dadas com filmes
com El Penalti Más Largo Del Mundo, do espanhol Roberto
Santiago. Em grandes paragonas estava também Real, The
Movie, um filme sobre o Real Madrid, os seus heróis e
jogadores. A revista Screen International anunciava ainda
mais um projecto do italiano Marco Rossi sobre a vida de
Maradona, e no stand da Irlanda estava anunciado Studs, uma
ficção sobre uma equipa de futebol de um meio pobre dos
arredores de Dublin. African United era anunciado também
como um documentário sobre uma equipa de africanos que vive
na Islândia, e depois mais um filme sobre um projecto do
escocês Douglas Gordon e do francês Phillippe Parreno, sobre
Zinadine Zidane. Entretanto 'Zizou' já tinha passado pela
competição, em Batalla en el Cielo, do mexicano Carlos Reygadas,
numa cena do bordel, em que um adepto vestia a camisa nº 5
pertencente ao grande jogador francês.