HomePage > Festivais > Festival Udine 13:49 - 05 Sep 2010
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Festival Udine
Festival Udine

A 7ª edição do Far East Film Festival de Udine (FEFF), a mais significativa mostra regular de cinema popular do extremo Oriente, decorreu no final de Abril, voltando a primar por uma óptima selecção de novas obras, a que se acrescentou a primeira retrospectiva do cinema de acção da produtora nipónica Nikkatsu no Ocidente e um foco em directores de fotografia que permitiu recuperar seis títulos essenciais.

O FEFF caracteriza-se por uma selecção que, na sua generalidade, é composta por obras que não passam por outros festivais, dada a sua natureza “popular”. Em Udine é possível assistir todos os dias a sete filmes e a um encontro com cineastas. É preciso é que haja energia para tal, naturalmente. O FEFF também não tem júris; é o público que vota nos filmes.

A diversidade de títulos apresentados está bem patente nos três mais votados: «Peacock» é um tradicional filme de arte e ensaio chinês, do tipo que seria previsivelmente premiado por um júri — como sucedeu em Berlim, de onde trouxe um Urso de Prata —, «Kamikaze Girls» é uma deliciosa, absurda, extravagante e hiperbólica comédia nipónica, com uma protagonista que vive nos arredores de Tóquio mas se veste ao estilo rococó francês, e «Someone Special», da Coreia do Sul, é uma comédia romântica bem acima da média, que assenta sobretudo na composição das duas personagens principais.

Um dos frutos mais apetecíveis desta edição foi a retrospectiva Nikkatsu. As projecções decorriam noutra sala, algo distante da principal, e de manhã. Também era necessário sacrificar outros filmes apresentados ao mesmo tempo, de modo que acabou por ser possível ver apenas três títulos: «Black Tight Killers» (1966), «Velvet Hustler» (1967) e «Gangster VIP» (1968). O primeiro é o mais sugestivo, com as suas assassinas em collants pretos que recorrem a armas imaginativas, como pastilha elástica ou discos de vinil.

O cinema chinês afastou-se do estereótipo “arte e ensaio”, existindo agora um grande número de produções com intenções comerciais e financiadas por privados. Feng Xiaogang é o nome que mais facilmente se associa a este "novo" cinema, que vence nas bilheteiras. O seu «A World Without Thieves» é um filme de aventuras que decorre quase totalmente dentro de um comboio e conta com a presença das estrelas Andy Lau, de Hong Kong, e Rene Liu, de Taiwan.

Expo Mangashi Teatro da Udine


Apesar de outros títulos "comerciais", os melhores filmes e os que mais agradaram ao público mantêm um registo arte e ensaio: «Peacock» e «Letter From a Unknown Woman», adaptado, produzido, realizado e interpretado pela jovem Xu Jinglei. «Suffocation», "o primeiro filme de horror chinês" decepcionou. As autoridades proíbem o sobrenatural, por isso o realizador Zhang Bingjian envereda pelo campo da psico-patologia para criar uma narrativa que confunde realidade e ficção, mas os constrangimentos da censura não deixam de vir à tona.

De Hong Kong apresentaram-se três dos policiais noirs do ano passado: «One Nite in Mongkok», «Love Battlefield» e «Explosive City». Pang Ho-cheung assinou dois dos títulos menos interessantes: «AV» e «Beyond our Ken». O primeiro, onde os protagonistas adolescentes simulam ter uma produtora de cinema pornográfico para poderem interagir com uma estrela japonesa, é tão imaturo quanto o anterior «Men Suddenly in Black», mas havia alguma curiosidade quanto ao segundo, referenciado como mais negro. Infelizmente, sobressai a falta de lógica na motivação das personagens e a previsibilidade de um twist que se anuncia muito cedo.

«Kamikaze Girls», «We Shall Overcome Some Day», sobre relações entre estudantes japoneses e coreanos durante as convulsões de 68, e «Crying out Love, in the Center of the World», um drama romântico em dois tempos cronológicos a fazer lembrar «Love Letter», com uma abordagem arqueológica sobre o amor, foram os melhores títulos japoneses projectados. «Lorelei» representou o cinema mainstream nipónico. A premissa "revisionista" é típica de alguma ficção japonesa: um submarino de alta tecnologia procura impedir o lançamento da terceira bomba atómica americana sobre o Japão, mas misturam-se alguns elementos fantásticos interessantes.

A qualidade dos títulos coreanos foi surpreendentemente elevada. De pouco interesse apenas «Arahan» e «Everybody Has Secrets». Este último, comédia ligeira, trouxe algum humor, mas a conclusão é um tanto ou quanto idiota. «Someone Special», «A Family», «Road», «Flying Boys» e «Green Chair» são todos a recomendar.

Do sudeste asiático vieram filmes da Tailândia, Filipinas e, uma novidade este ano, um da Malásia, integrado no "Horror Day": «Pontianak», que, infelizmente, pouco trouxe de novo e a sua montagem é soporífera.

Teatro da Udine Teatro da Udine


Dos quatro filmes tailandeses dois tinham pouco interesse: «Pattaya Maniac», comédia tola com pouca graça, e «Art of the Devil», horror convencional, com magia negra e uma protagonista cujas motivações não convencem. Por outro lado, «Zee Oui» trouxe horror mais perturbante por ser "demasiado real". Baseado na história verdadeira de um emigrante chinês na Tailândia que matou várias crianças, com intuitos medicinais (não perguntem). Muito gráfico, a lembrar um pouco o shocker de Hong Kong «The Untold Story», mas sem o prisma de exploitation.

A maior expectativa guardava-se para «Born to Fight», realizado por Panna Ritthikrai, coreógrafo de acção de «Ong Bak». A história tem pouco relevo, mas a acção, crua, realista e violenta, é quase non-stop. Depois de arrancar, só pára no final do filme. Vários momentos arrancaram aplausos da audiência, num filme que é um verdadeiro desfile de acrobacias suicidas, como quedas de camiões em andamento, para o tejadilho de um carro e depois para o chão — sem fios ou CGI (pelo aspecto da imagem, mal parecia haver orçamento para película).

Das Filipinas, três filmes, três apostas ganhas. «Feng Shui» é um filme de horror à moda antiga. Uma mulher encontra um espelho bagua que alguém deixa no autocarro e, a partir daí, a família é cercada por uma inacreditável vaga de boa sorte. Mas, claro, há uma factura a pagar. Peca pelo final demasiado "típico", que já irritava nos anos 80. Também no campo do horror, «Pa-syam», rodado em DV, opta, com bons resultados, por apostar numa linha narrativa de mistério, envolvendo fantasmas.

O terceiro filme filipino foi o menos sério. Aliás, nada sério. «Mr. Suave», como a realizadora Joyce Bernal explicou, foi produzido para capitalizar no sucesso de uma canção pop que estava no nº1 do top de vendas nas Filipinas — a rodagem foi rápida para que o filme chegasse às salas antes da canção descer para nº 2. A canção é despachada durante os créditos, quando o "herói" veste a sua indumentária, coloca o bigode e se prepara para entrar em cena.

 
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