A 7ª edição do Far East Film Festival de Udine (FEFF),
a mais significativa mostra regular de cinema popular
do extremo Oriente, decorreu no final de Abril, voltando
a primar por uma óptima selecção de novas obras, a que se
acrescentou a primeira retrospectiva do cinema de acção da
produtora nipónica Nikkatsu no Ocidente e um foco em directores
de fotografia que permitiu recuperar seis títulos essenciais.
O FEFF caracteriza-se por uma selecção que, na sua generalidade,
é composta por obras que não passam por outros festivais,
dada a sua natureza “popular”. Em Udine é possível assistir
todos os dias a sete filmes e a um encontro com cineastas.
É preciso é que haja energia para tal, naturalmente. O FEFF
também não tem júris; é o público que vota nos filmes.
A diversidade de títulos apresentados está bem patente nos
três mais votados: «Peacock» é um tradicional filme de arte
e ensaio chinês, do tipo que seria previsivelmente premiado
por um júri — como sucedeu em Berlim, de onde trouxe um Urso
de Prata —, «Kamikaze Girls» é uma deliciosa, absurda,
extravagante e hiperbólica comédia nipónica, com uma
protagonista que vive nos arredores de Tóquio mas se veste
ao estilo rococó francês, e «Someone Special», da Coreia
do Sul, é uma comédia romântica bem acima da média, que
assenta sobretudo na composição das duas personagens principais.
Um dos frutos mais apetecíveis desta edição foi a
retrospectiva Nikkatsu. As projecções decorriam noutra sala,
algo distante da principal, e de manhã. Também era necessário
sacrificar outros filmes apresentados ao mesmo tempo, de modo
que acabou por ser possível ver apenas três títulos:
«Black Tight Killers» (1966), «Velvet Hustler» (1967) e
«Gangster VIP» (1968). O primeiro é o mais sugestivo, com
as suas assassinas em collants pretos que recorrem a armas
imaginativas, como pastilha elástica ou discos de vinil.
O cinema chinês afastou-se do estereótipo “arte e ensaio”,
existindo agora um grande número de produções com intenções
comerciais e financiadas por privados. Feng Xiaogang é o nome
que mais facilmente se associa a este "novo" cinema, que vence
nas bilheteiras. O seu «A World Without Thieves» é um filme
de aventuras que decorre quase totalmente dentro de um
comboio e conta com a presença das estrelas Andy Lau, de Hong
Kong, e Rene Liu, de Taiwan.
Apesar de outros títulos "comerciais", os melhores filmes
e os que mais agradaram ao público mantêm um registo arte e
ensaio: «Peacock» e «Letter From a Unknown Woman», adaptado,
produzido, realizado e interpretado pela jovem Xu Jinglei.
«Suffocation», "o primeiro filme de horror chinês" decepcionou.
As autoridades proíbem o sobrenatural, por isso o realizador
Zhang Bingjian envereda pelo campo da psico-patologia para
criar uma narrativa que confunde realidade e ficção, mas
os constrangimentos da censura não deixam de vir à tona.
De Hong Kong apresentaram-se três dos policiais noirs do
ano passado: «One Nite in Mongkok», «Love Battlefield» e
«Explosive City». Pang Ho-cheung assinou dois dos títulos menos
interessantes: «AV» e «Beyond our Ken». O primeiro, onde os
protagonistas adolescentes simulam ter uma produtora de cinema
pornográfico para poderem interagir com uma estrela japonesa,
é tão imaturo quanto o anterior «Men Suddenly in Black», mas
havia alguma curiosidade quanto ao segundo, referenciado como
mais negro. Infelizmente, sobressai a falta de lógica na motivação
das personagens e a previsibilidade de um twist que se anuncia
muito cedo.
«Kamikaze Girls», «We Shall Overcome Some Day», sobre relações
entre estudantes japoneses e coreanos durante as convulsões de
68, e «Crying out Love, in the Center of the World», um drama
romântico em dois tempos cronológicos a fazer lembrar «Love Letter»,
com uma abordagem arqueológica sobre o amor, foram os melhores
títulos japoneses projectados. «Lorelei» representou o cinema
mainstream nipónico. A premissa "revisionista" é típica de alguma
ficção japonesa: um submarino de alta tecnologia procura impedir
o lançamento da terceira bomba atómica americana sobre o Japão,
mas misturam-se alguns elementos fantásticos interessantes.
A qualidade dos títulos coreanos foi surpreendentemente elevada.
De pouco interesse apenas «Arahan» e «Everybody Has Secrets».
Este último, comédia ligeira, trouxe algum humor, mas a conclusão
é um tanto ou quanto idiota. «Someone Special», «A Family»,
«Road», «Flying Boys» e «Green Chair» são todos a recomendar.
Do sudeste asiático vieram filmes da Tailândia, Filipinas e,
uma novidade este ano, um da Malásia, integrado no "Horror Day":
«Pontianak», que, infelizmente, pouco trouxe de novo e a sua
montagem é soporífera.
Dos quatro filmes tailandeses dois tinham pouco interesse:
«Pattaya Maniac», comédia tola com pouca graça, e «Art of the Devil»,
horror convencional, com magia negra e uma protagonista cujas
motivações não convencem. Por outro lado, «Zee Oui» trouxe horror
mais perturbante por ser "demasiado real". Baseado na história
verdadeira de um emigrante chinês na Tailândia que matou várias
crianças, com intuitos medicinais (não perguntem). Muito gráfico,
a lembrar um pouco o shocker de Hong Kong «The Untold Story»,
mas sem o prisma de exploitation.
A maior expectativa guardava-se para «Born to Fight», realizado
por Panna Ritthikrai, coreógrafo de acção de «Ong Bak». A história
tem pouco relevo, mas a acção, crua, realista e violenta, é quase
non-stop. Depois de arrancar, só pára no final do filme. Vários
momentos arrancaram aplausos da audiência, num filme que é um
verdadeiro desfile de acrobacias suicidas, como quedas de
camiões em andamento, para o tejadilho de um carro e depois
para o chão — sem fios ou CGI (pelo aspecto da imagem, mal
parecia haver orçamento para película).
Das Filipinas, três filmes, três apostas ganhas. «Feng Shui»
é um filme de horror à moda antiga. Uma mulher encontra um
espelho bagua que alguém deixa no autocarro e, a partir daí,
a família é cercada por uma inacreditável vaga de boa sorte.
Mas, claro, há uma factura a pagar. Peca pelo final demasiado
"típico", que já irritava nos anos 80. Também no campo do horror,
«Pa-syam», rodado em DV, opta, com bons resultados, por apostar
numa linha narrativa de mistério, envolvendo fantasmas.
O terceiro filme filipino foi o menos sério. Aliás, nada sério.
«Mr. Suave», como a realizadora Joyce Bernal explicou, foi
produzido para capitalizar no sucesso de uma canção pop que
estava no nº1 do top de vendas nas Filipinas — a rodagem foi
rápida para que o filme chegasse às salas antes da canção descer
para nº 2. A canção é despachada durante os créditos, quando o
"herói" veste a sua indumentária, coloca o bigode e se prepara
para entrar em cena.