HomePage > Entrevistas > Stephen Chow 13:21 - 05 Sep 2010
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Stephen Chow
Stephen Chow

Foi em Madrid que se realizou a entrevista a Stephen Chow, realizador de “Kung Fu Hustle”. Em tom informal e ambiente descontraído, a conversa correu bem, sempre com uma tradutora presente No meio de muitas gargalhadas e alguns problemas de tradução, ficámos a conhecer mais sobre este peculiar realizador, que tem Bruce Lee como ídolo e que espantou muita gente com a sua comédia "Shaolin Soccer", um trabalho que misturava Kung Fu e Futebol. Agora Stephen Chow tem uma nova película, "Kung-Fu Hustle" (Kung-Fu-Zão), e promete ter tanto sucesso na Europa como teve na Ásia.

Carla: O que pensa do Kung Fu? Vê-o como algo cómico ou leva-o a sério?

Chow: O Kung Fu é muito importante para mim, aprendo Kung Fu desde miúdo e mesmo agora ainda aprendo. Por causa do Kung Fu tornei-me actor, realizador, e vou continuar à procura das minhas ambições, nunca vou desistir. Tudo por causa do Kung Fu e especialmente de Bruce Lee. Aprendi algo muito positivo por causa desta arte marcial, que marcou a minha vida.

Carla: E em relação à Filosofia Kung Fu? Como é que funciona?

Chow: Há diferentes níveis de filosofia Kung Fu, mas basicamente aprende-se porque é um bom treino e fica-se com uma boa condição física. Tornamo-nos mais fortes e aprendemos sobre o espírito do Kung Fu. O espírito deste desporto é como ser corajoso, ser uma boa pessoa. O nível mais elevado do Kung Fu tem a ver com o sacrifício pelo amor, pela justiça, pela família, pelo país. Sacrificamo-nos por tudo isto. É um nível diferente, onde só alguns chegam. O Kung Fu tem uma filosofia essencial: aprendemos a lutar mas, no fundo, o objectivo é não lutar. Aprende-se a lutar para não ter de lutar.

Carla: Acredita neste nível mais elevado do Kung Fu? Ou a sua maneira de ver as coisas é diferente?

Chow: Quer dizer... actualmente vivemos num mundo pacífico. Normalmente não há guerra e tudo corre bem, por isso falar em sacrifício parece algo tonto e desnecessário. Mas imagine-se num período de guerra… tudo é possível. Acredito que as pessoas devem fazer algo pela justiça e pelo amor. Pela bondade. Pela humanidade! De outra forma, o mundo torna-se um sítio sem esperança.

Carla: No seu filme tem personagens muito diferentes e divertidas? Foi difícil o casting?

Chow: Por exemplo, a Landlady. Eu estava à procura de uma mulher que pudesse fazer as cenas de duplo e de Kung Fu, mas que ao mesmo tempo fosse muito gorda. Por isso tive algumas dificuldades em encontrar a pessoa certa. Normalmente os duplos e praticantes de Kung Fu são muito magros e estão em muito boa forma física. Eu procurava uma pessoa mais roliça. Demorei a descobrir a actriz, mas conheci-a (à Yuen Qiu) por casualidade, no meu escritório. Posso dizer que tive muita sorte por a ter encontrado, e também com o resto do elenco. Tive actores fantásticos no meu filme.

Carla: No seu filme há actores veteranos e mesmo reformados, como é o caso do actor que desempenha a personagem “The Beast”. Porque tomou essa opção?

Chow: Sim, alguns deles já estavam reformados... mas acho que o objectivo do casting é contratar alguém que corresponda à imagem que temos na nossa cabeça. Todos estes actores e actrizes são muito apropriados para o papel que têm. Embora já se tenham reformado, têm muita experiência. Além disso, foram todos mestres de Kung Fu no passado! Acho que isso é muito positivo para o meu filme.

Carla: Acha que os ocidentais podem perceber o sentido de humor dos seus filmes?

Chow: Acho que sim! O sentido de humor dos meus filmes é um bom sentido de humor, que pode ser entendido em todo o mundo... espero eu!!! (risos) O humor nasce em todo o lado... não tem fronteiras!

Carla: Considera que, no futuro, o cinema chinês vai dominar o mundo, como actualmente domina o americano?

Chow: O cinema chinês? Dominar o mundo? (risos) Bem, o cinema chinês tem a sorte de ser chinês. O mercado chinês é enorme, mesmo para um realizador de nacionalidade chinesa. Eu sou de Hong Kong, um meio relativamente pequeno. A China inteira é um mercado muito importante. O “Kung Fu Hustle” teve muito sucesso na China, o que é bastante diferente do que se passava antes. A população na China é gigantesca e assim as mentalidades e o próprio país torna-se mais aberto para a indústria cinematográfica, tem potencial para ser o maior mercado do mundo. Mas é preciso tempo... (risos) agora não, mas talvez no futuro. Estou optimista em relação a isso.

Carla: O seu filme teve um grande sucesso. Acha que tem o segredo do que as pessoas querem ver?

Chow: Bem... eu limito-me a adivinhar! (risos) Tento sentir, perceber o que as pessoas estão a pensar. Umas vezes acerto, outras não... Claro, não sou Deus e não posso ler a mente das pessoas. Mas faço filmes há 15 anos… já tenho alguma experiência. Às vezes cometo erros, mas tento corrigi-los. Aprendo com os erros e tento sempre melhorar. É uma questão de aprendizagem. Há que ter este tipo de atitude: continuar sempre a aprender e dar o nosso melhor.

Carla: É realizador, produtor, actor. Se tivesse de escolher um, qual seria?

Chow: Realizador. Sem dúvida. É um trabalho muito difícil mas ao mesmo tempo é um grande desafio para mim. Gosto de representar, mas já o fiz durante muito tempo. A realização é diferente. Este é apenas o quinto filme que realizo. Ainda é tudo muito novo para mim, muito fresco!

Carla: Como foi trabalhar com o coreógrafo Yuen Woo-Ping, responsável por filmes como “Matrix” e “O Tigre e o Dragão”? Ele dava a sua opinião sobre o filme?

Chow: Foi uma experiência óptima. Ele é um dos melhores coreógrafos de Hong Kong. Basicamente, a ideia partia de mim e eu explicava-lhe como queria. Ele dava-me muito feedback: o que achava, se era concretizável ou não, a sua sugestão. A ideia partia de mim e depois discutíamo-la e mudávamo-la se necessário.

Carla: Podemos considerá-lo um sucessor de Bruce Lee ou de Jackie Chan?

Chow: O Bruce Lee, para mim, é Deus! (risos) Jackie Chan é uma estrela, uma grande estrela. O Bruce Lee está no top! Eu... não sou nada... Sou só um realizador. Trabalho muito, sempre. A diferença é essa. Sou um realizador e não um actor que só aparece à frente da câmara. Eu tento controlar o filme, a qualidade do filme, criar algo. Jackie Chan é a estrela do Kung Fu e um grande actor. O Bruce Lee... é o meu ídolo!!!

Carla: Hong Kong passou recentemente para as mãos da China. Sente alguma diferença na cidade, em termos de viver e de fazer cinema?

Chow: Não vejo diferença nenhuma entre o antes e o agora. Mas actualmente, penso que a situação para Hong Kong é melhor, porque a China tem um grande mercado.

Carla: Se alguém de Hollywood lhe batesse à porta e lhe pedisse para realizar um filme, como reagia?

Chow: Bem... não recebi nenhum telefonema... talvez não tenham o meu número de telefone. Se calhar vou enviar um cartão de visita para receber uma proposta assim! (risos)

Carla: Imagina-se a trabalhar em qualquer outro sítio que não Hong Kong?

Chow: Porque não? Claro que sim! Seria maravilhoso ter a oportunidade de trabalhar noutros sítios, com outras pessoas. Hong Kong é pequeno e aborrecido... (risos) não há muito espaço para fazer as coisas de modo diferente. Seria uma boa ideia fazer algo em Espanha, porque não?

Carla: O seu filme teve 16 nomeações para o “Hong Kong Film Awards”. Acha que as nomeações são um reconhecimento da crítica e do público?

Chow: Tivemos 16 nomeações, mas só ganhámos 6! (risos) Sim, é espantoso ter um recorde de box Office e também o reconhecimento da crítica, o que não é muito normal. Para mim, o mais importante é o público e o facto de terem ido ver o meu filme e de terem gostado é o mais espantoso.

Carla: Como aceita as críticas dos media?

Chow: Depende do tipo de crítica. Em Hong Kong as críticas são em diferentes níveis: alguém que fez um trabalho profissional na crítica é diferente de alguém que criticou sem saber bem do que falava. Mas aprende-se sempre, em diferentes aspectos. É sempre bom as críticas ao nosso filme, porque um bom crítico representa uma determinada parte do público. Para mim, prefiro manter a crítica em mente se for boa e esquecê-la se for má. Há sempre algo a retirar, mesmo que a crítica seja má. Pode-se saber qual é o ponto forte e o ponto fraco do filme e o que pode ser melhorado. Isso é o mais importante.

Carla: Quais são os seus projectos futuros?

Chow: A sequela de “Kung Fu Hustle”. Ainda é um projecto a desenvolver, mas espero que dentro de pouco tempo possam começar as filmagens. Não se bem quando mas espero que tal aconteça o mais rapidamente possível.

Cátia C. Simões em Madrid
 
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