Foi em Madrid que se realizou a entrevista a Stephen Chow,
realizador de “Kung Fu Hustle”. Em tom informal e ambiente
descontraído, a conversa correu bem, sempre com uma tradutora
presente No meio de muitas gargalhadas e alguns problemas de
tradução, ficámos a conhecer mais sobre este peculiar realizador,
que tem Bruce Lee como ídolo e que espantou muita gente com a
sua comédia "Shaolin Soccer", um trabalho que misturava Kung
Fu e Futebol. Agora Stephen Chow tem uma nova película, "Kung-Fu
Hustle" (Kung-Fu-Zão), e promete ter tanto sucesso na Europa
como teve na Ásia.
Carla: O que pensa do Kung Fu? Vê-o como algo cómico ou leva-o a
sério?
Chow: O Kung Fu é muito importante para mim, aprendo Kung Fu desde
miúdo e mesmo agora ainda aprendo. Por causa do Kung Fu
tornei-me actor, realizador, e vou continuar à procura das
minhas ambições, nunca vou desistir. Tudo por causa do Kung
Fu e especialmente de Bruce Lee. Aprendi algo muito positivo
por causa desta arte marcial, que marcou a minha vida.
Carla: E em relação à Filosofia Kung Fu? Como é que funciona?
Chow: Há diferentes níveis de filosofia Kung Fu, mas basicamente
aprende-se porque é um bom treino e fica-se com uma boa condição
física. Tornamo-nos mais fortes e aprendemos sobre o espírito
do Kung Fu. O espírito deste desporto é como ser corajoso,
ser uma boa pessoa. O nível mais elevado do Kung Fu tem a
ver com o sacrifício pelo amor, pela justiça, pela família,
pelo país. Sacrificamo-nos por tudo isto. É um nível diferente,
onde só alguns chegam. O Kung Fu tem uma filosofia essencial:
aprendemos a lutar mas, no fundo, o objectivo é não lutar.
Aprende-se a lutar para não ter de lutar.
Carla: Acredita neste nível mais elevado do Kung Fu? Ou a sua maneira
de ver as coisas é diferente?
Chow: Quer dizer... actualmente vivemos num mundo pacífico. Normalmente
não há guerra e tudo corre bem, por isso falar em sacrifício
parece algo tonto e desnecessário. Mas imagine-se num período
de guerra… tudo é possível. Acredito que as pessoas devem fazer
algo pela justiça e pelo amor. Pela bondade. Pela humanidade!
De outra forma, o mundo torna-se um sítio sem esperança.
Carla: No seu filme tem personagens muito diferentes e divertidas? Foi
difícil o casting?
Chow: Por exemplo, a Landlady. Eu estava à procura de uma mulher que
pudesse fazer as cenas de duplo e de Kung Fu, mas que ao mesmo
tempo fosse muito gorda. Por isso tive algumas dificuldades em
encontrar a pessoa certa. Normalmente os duplos e praticantes
de Kung Fu são muito magros e estão em muito boa forma física.
Eu procurava uma pessoa mais roliça. Demorei a descobrir a actriz,
mas conheci-a (à Yuen Qiu) por casualidade, no meu escritório.
Posso dizer que tive muita sorte por a ter encontrado, e também
com o resto do elenco. Tive actores fantásticos no meu filme.
Carla: No seu filme há actores veteranos e mesmo reformados, como é o
caso do actor que desempenha a personagem “The Beast”. Porque tomou
essa opção?
Chow: Sim, alguns deles já estavam reformados... mas acho que o objectivo
do casting é contratar alguém que corresponda à imagem que temos
na nossa cabeça. Todos estes actores e actrizes são muito apropriados
para o papel que têm. Embora já se tenham reformado, têm muita
experiência. Além disso, foram todos mestres de Kung Fu no passado!
Acho que isso é muito positivo para o meu filme.
Carla: Acha que os ocidentais podem perceber o sentido de humor dos seus
filmes?
Chow: Acho que sim! O sentido de humor dos meus filmes é um bom sentido
de humor, que pode ser entendido em todo o mundo... espero eu!!!
(risos) O humor nasce em todo o lado... não tem fronteiras!
Carla: Considera que, no futuro, o cinema chinês vai dominar o mundo,
como actualmente domina o americano?
Chow: O cinema chinês? Dominar o mundo? (risos) Bem, o cinema chinês
tem a sorte de ser chinês. O mercado chinês é enorme, mesmo para
um realizador de nacionalidade chinesa. Eu sou de Hong Kong, um
meio relativamente pequeno. A China inteira é um mercado muito
importante. O “Kung Fu Hustle” teve muito sucesso na China, o
que é bastante diferente do que se passava antes. A população na
China é gigantesca e assim as mentalidades e o próprio país
torna-se mais aberto para a indústria cinematográfica, tem potencial
para ser o maior mercado do mundo. Mas é preciso tempo... (risos)
agora não, mas talvez no futuro. Estou optimista em relação
a isso.
Carla: O seu filme teve um grande sucesso. Acha que tem o segredo do
que as pessoas querem ver?
Chow: Bem... eu limito-me a adivinhar! (risos) Tento sentir, perceber
o que as pessoas estão a pensar. Umas vezes acerto, outras não...
Claro, não sou Deus e não posso ler a mente das pessoas. Mas
faço filmes há 15 anos… já tenho alguma experiência. Às vezes
cometo erros, mas tento corrigi-los. Aprendo com os erros e tento
sempre melhorar. É uma questão de aprendizagem. Há que ter este
tipo de atitude: continuar sempre a aprender e dar o nosso melhor.
Carla: É realizador, produtor, actor. Se tivesse de escolher um, qual
seria?
Chow: Realizador. Sem dúvida. É um trabalho muito difícil mas ao mesmo
tempo é um grande desafio para mim. Gosto de representar, mas já
o fiz durante muito tempo. A realização é diferente. Este é
apenas o quinto filme que realizo. Ainda é tudo muito novo para
mim, muito fresco!
Carla: Como foi trabalhar com o coreógrafo Yuen Woo-Ping, responsável
por filmes como “Matrix” e “O Tigre e o Dragão”? Ele dava a sua
opinião sobre o filme?
Chow: Foi uma experiência óptima. Ele é um dos melhores coreógrafos
de Hong Kong. Basicamente, a ideia partia de mim e eu explicava-lhe
como queria. Ele dava-me muito feedback: o que achava, se era
concretizável ou não, a sua sugestão. A ideia partia de mim e
depois discutíamo-la e mudávamo-la se necessário.
Carla: Podemos considerá-lo um sucessor de Bruce Lee ou de Jackie Chan?
Chow: O Bruce Lee, para mim, é Deus! (risos) Jackie Chan é uma estrela,
uma grande estrela. O Bruce Lee está no top! Eu... não sou
nada... Sou só um realizador. Trabalho muito, sempre. A diferença
é essa. Sou um realizador e não um actor que só aparece à frente
da câmara. Eu tento controlar o filme, a qualidade do filme, criar
algo. Jackie Chan é a estrela do Kung Fu e um grande actor. O Bruce
Lee... é o meu ídolo!!!
Carla: Hong Kong passou recentemente para as mãos da China. Sente alguma
diferença na cidade, em termos de viver e de fazer cinema?
Chow: Não vejo diferença nenhuma entre o antes e o agora. Mas actualmente,
penso que a situação para Hong Kong é melhor, porque a China tem um
grande mercado.
Carla: Se alguém de Hollywood lhe batesse à porta e lhe pedisse para realizar
um filme, como reagia?
Chow: Bem... não recebi nenhum telefonema... talvez não tenham o meu número de
telefone. Se calhar vou enviar um cartão de visita para receber uma
proposta assim! (risos)
Carla: Imagina-se a trabalhar em qualquer outro sítio que não Hong Kong?
Chow: Porque não? Claro que sim! Seria maravilhoso ter a oportunidade de
trabalhar noutros sítios, com outras pessoas. Hong Kong é pequeno
e aborrecido... (risos) não há muito espaço para fazer as coisas de
modo diferente. Seria uma boa ideia fazer algo em Espanha, porque
não?
Carla: O seu filme teve 16 nomeações para o “Hong Kong Film Awards”. Acha
que as nomeações são um reconhecimento da crítica e do público?
Chow: Tivemos 16 nomeações, mas só ganhámos 6! (risos) Sim, é espantoso
ter um recorde de box Office e também o reconhecimento da crítica,
o que não é muito normal. Para mim, o mais importante é o público
e o facto de terem ido ver o meu filme e de terem gostado é o mais
espantoso.
Carla: Como aceita as críticas dos media?
Chow: Depende do tipo de crítica. Em Hong Kong as críticas são em
diferentes níveis: alguém que fez um trabalho profissional na
crítica é diferente de alguém que criticou sem saber bem do que
falava. Mas aprende-se sempre, em diferentes aspectos. É sempre
bom as críticas ao nosso filme, porque um bom crítico representa
uma determinada parte do público. Para mim, prefiro manter a crítica
em mente se for boa e esquecê-la se for má. Há sempre algo a retirar,
mesmo que a crítica seja má. Pode-se saber qual é o ponto forte e o
ponto fraco do filme e o que pode ser melhorado. Isso é o mais importante.
Carla: Quais são os seus projectos futuros?
Chow: A sequela de “Kung Fu Hustle”. Ainda é um projecto a desenvolver,
mas espero que dentro de pouco tempo possam começar as filmagens.
Não se bem quando mas espero que tal aconteça o mais rapidamente
possível.