HomePage > Crónicas > Luís Canau > Wong Kar-Wai 12:34 - 05 Sep 2010
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Wong Kar-Wai
Wong Kar-Wai

Wong Kar-wai nasceu em Xangai em 1958 e emigrou com a família para Hong Kong em 1963(1).

Estudou design gráfico e começou a trabalhar na indústria cinematográfica como argumentista, depois de passar pela emissora TVB, vindo a assinar títulos como «The Intellectual Trio» (1985) ou «Saviour of the Soul» (1991).

Na definição de Stephen Teo, o trabalho de Wong seria mais de um “idea’s man” do que exactamente de argumentista, algo que poderá explicar porque é que ele é frequentemente creditado como co-argumentista ou, como no caso de «Saviour of the Soul», não seja sequer creditado(2).

O cinema de Wong Kar-wai assenta em duas linhas condutoras: personagens em busca da sua identidade e a consciencialização de um momento perdido ou desperdiçado que não mais se conseguirá recuperar — a passagem do tempo, momentos fixos no tempo, relógios, são obsessões temáticas e pictóricas do cineasta.

Estes temas estão presentes desde o primeiro filme do realizador, «Mong Kok Ka Moon/As Tears Go By» (1988), sendo aprimorados em títulos futuros, à medida que Wong procurava novas formas de representar, frente à lente da câmara, os espíritos atormentados das suas personagens.

As Tears Go By Days of Being Wild

O segundo filme de Wong, «A Fei Jing Juen/Days of Being Wild» (1990) é, em certa medida, menos cativante do que a generalidade dos restantes títulos da sua filmografia, algo que decorre também da personagem central, Yuddi (Leslie Cheung), um playboy frio e desapaixonado, que despreza as mulheres que o amam, por, em última análise, ter sido abandonado pela mãe. Yuddi rejeita ligações estáveis e qualquer afectividade com o sexo oposto devido a impossibilidade de consubstanciar a sua própria identidade, algo que procurará fazer, mesmo que isso o leve à auto-destruição. É um indivíduo frustrado, à procura das suas origens e da mãe verdadeira, escondendo tristeza e instabilidade por detrás da aparente sólida auto-confiança, usando filosofia de pacotilha para justificar o seu comportamento com as mulheres: ele é “como um pássaro sem pernas, que não pode nunca pousar”. Yuddi não “poisa” por não conseguir resolver a sua identidade, o ponto de partida para o voo que agora não pode ser interrompido. Por essa razão rejeita o amor. De um modo que viria a ser típico na obra de Wong, a personagem nega a estabilidade e a possibilidade de ter uma vida normal ao lado de quem o ama até ser tarde demais. Ele relaciona-se com Lizhen (Maggie Cheung Man-yuk), empregada de balcão num bar, e Mimi (Carina Lau Ka-ling), dançarina num clube nocturno, e tem a oportunidade de, ao lado de uma delas, encontrar o equilíbrio da sua vida.

Quando o vier a entender poderá ser já tarde demais. A identidade é um tema recorrente que tem também uma função cultural e histórica. Wong Kar-wai nasceu na República Popular da China, mas tem vivido em Hong Kong — colónia britânica até 1997. O título do seu último filme, «2046», evoca o final do período de “um país, dois sistemas”, após o qual o território integrará plenamente, em termos territoriais e políticos, a RPC.

Em «Days of Being Wild», a mãe (pátria?) encontra-se também fora do país que Yuddi habita — nas Filipinas. Há algum paralelismo em «2046», quando Chow (Tony Leung Chiu-wai), viaja para Singapura à procura de uma resolução que virá a ser, igualmente, frustrada.

2046 Chungking Express

Wong joga com conceitos de identidade cultural e de patriotismo que têm uma acepção invulgar em Hong Kong, dadas as suas especificidades — chineses que não pertencem à China, culturalmente próximos das suas raízes, mas também influenciados pelo Ocidente e governados pelo Reino Unido (até 1997). O realizador recorre constantemente a personagens de origens diversas, usando diferentes línguas e dialectos, por forma a acentuar contrastes relacionados com a identidade (cultural) e a individualidade das personagens. A interpenetração, a negação do isolamento cultural, ilustram-se pela utilização de várias línguas por algumas personagens, como Wang Fei em «2046» ou Kaneshiro Takeshi em «Chungking Express», os quais chegam a utilizar cantonês, mandarim e japonês num breve espaço de tempo, e pela selecção da música presente na banda sonora, que recorre frequentemente a melodias pop orientais e ocidentais. O conceito do “tempo certo” é explorado até a exaustão em várias das obras de Wong Kar-wai. As personagens esperam demasiado tempo para tomar decisões necessárias. O momento passa como um flash e depois é tarde demais; segundas oportunidades não existem no mundo criado pelo realizador, algo que confere a estes filmes um vincado pessimismo; as personagens permanecem imersas num mundo de amargura, muitas vezes sem força de vontade para se manterem à tona.

«Disponível para Amar» é o filme em que Wong concentra de forma mais clara alguns dos seus conceitos, recorrendo a uma estrutura narrativa criada em redor de apenas duas personagens centrais, que dispõem de um longo período de tempo para conseguirem encontrar a felicidade, a realização de um ideal de amor romântico, também característico da obra de Wong e representado de forma mais clara possível em «A Chinese Odyssey 2002», que abarca vários dos temas do realizador, travestido (por vezes literalmente) de comédia e spoof do cinema wuxia e óperas de Huangmei, populares em Hong Kong e na China nos anos 604. Os protagonistas de «Disponível para Amar» — a Su Lizhen, de «Days of Being Wild», e Chow Mo-wan, uma personagem que seria apresentada no mesmo filme, mas não desenvolvida — têm de lidar com obstáculos difíceis de ultrapassar, sobretudo com o facto de ambos serem casados. Wong remove inclusive a presença dos cônjuges, permanentemente off-screen, dando todo o espaço do filme para que Leung e Cheung se movimentem (e para que ela possa “desfilar” com um extenso guarda-roupa de época). Mas existem amarras sociais que lhes toldam os movimentos e restringem os desejos. O “momento certo”, tantas vezes assinalado pelos planos que enquadram o tempo (relógios ou a utilização de fotografia em slow-motion ou time-lapse), aqui é particularmente prolongado, mas, ainda assim, desperdiçado. O título original do filme poderá traduzir-se para “flores como os anos”, a partir de uma canção clássica, interpretada por Zhou Xuan, que se houve na rádio (“Hua Yang de Nianhua” — o título deixa cair a partícula “de”) 5. Acentua-se, uma vez mais, o passar do tempo: a juventude (uma flor que desabrochou) e a velhice (com os anos, as flores secam, tal como as pessoas amadurecem ou envelhecem). É também Maggie Cheung que se lamenta em «Ashes of Time», um filme onde o seu papel é reduzido ao ponto do seu rosto não figurar nos posters, de ter desperdiçado os seus “melhores anos” ao lado de alguém que não amava. É esta a mesma melancolia que trespassa «Disponível para Amar».

Ashes of Time In the Mood for Love

Se «In the Mood for Love» era caracterizado pela restrição, «2046» centra-se na consumação física, na sequência de uma aparente impossibilidade de realização do “ideal romântico”. Voltamos a Chow, noutra fase da sua vida, sem Su Lizhen. Ela, no entanto, continua presente, nas suas memórias e no seu coração. Um fantasma — já se disse e pode dizer-se de novo. Em certa medida, assistimos ao fechar de um círculo, com Chow a seguir uma atitude egocêntrica similar à de Yuddi, de «Days of Being Wild», assente no seu próprio prazer e negando ligações emocionais às mulheres que passam pela sua cama. A diferença entre as personagens é a sua maturidade. Yuddi era jovem, escusando-se com filosofia barata; Chow é um adulto e mais consciente das verdadeiras razões que motivam o seu modo de agir — mas igualmente incapaz de as superar, como se constata com a negação de uma possível segunda oportunidade com Su Lizhen (a outra) —, usando a criação literária como válvula de escape para as suas fantasias de substituição.

1) Wang Jiawei em mandarim (pinyin). Para os mais distraídos, o apelido é Wong (ou Wang), sendo o nome próprio formado por dois caracteres, ligados em pinyin (jiawei) ou separados por um hífen na romanização mais frequente do cantonês (kar-wai). O ‘r’ em “kar” é mudo — a pronúncia assemelha-se a “ká” ou “gá”.

2) Hong Kong - The Extra Dimensions (1997, BFI Publishing)

3) Confronte com as declarações de Cheung nas entrevistas para Cine East - Hong Kong Cinema Through the Looking Glass, de Miles Wood (1998, Fab Press) ou para o documentário «Yang ± Yin: Gender in Chinese Cinema» (Hong Kong/Reino Unido, 1996), de Stanley Kwan, parte da série “The Century of Cinema”, do British Film Institute.

4) «Tianxia Wushuang» (2002). Uma das traduções possíveis ilustra o “ideal romântico” que se refere ao longo do texto: “único [sem par] no mundo [sob o céu]”. Produzido por Wong Kar-wai e realizado por Jeff Lau Chun-wai.

5) O primeiro título internacional anunciado foi «Flowers like Years», antes de se ter optado, a posteriori, por «In the Mood for Love», a partir de uma canção que surge nos trailers mas não no filme.

Luis Canau
11.2005
 
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