Wong Kar-wai nasceu em Xangai em 1958 e emigrou com a
família para Hong Kong em 1963(1).
Estudou design gráfico e começou a trabalhar na indústria
cinematográfica como argumentista, depois de passar pela
emissora TVB, vindo a assinar títulos como «The Intellectual
Trio» (1985) ou «Saviour of the Soul» (1991).
Na definição de Stephen Teo, o trabalho de Wong seria mais
de um “idea’s man” do que exactamente de argumentista, algo
que poderá explicar porque é que ele é frequentemente creditado
como co-argumentista ou, como no caso de «Saviour of the Soul»,
não seja sequer creditado(2).
O cinema de Wong Kar-wai assenta em duas linhas condutoras:
personagens em busca da sua identidade e a consciencialização
de um momento perdido ou desperdiçado que não mais se conseguirá
recuperar — a passagem do tempo, momentos fixos no tempo,
relógios, são obsessões temáticas e pictóricas do cineasta.
Estes temas estão presentes desde o primeiro filme do
realizador, «Mong Kok Ka Moon/As Tears Go By» (1988), sendo
aprimorados em títulos futuros, à medida que Wong procurava
novas formas de representar, frente à lente da câmara, os
espíritos atormentados das suas personagens.
O segundo filme de Wong, «A Fei Jing Juen/Days of Being Wild»
(1990) é, em certa medida, menos cativante do que a generalidade
dos restantes títulos da sua filmografia, algo que decorre
também da personagem central, Yuddi (Leslie Cheung), um playboy
frio e desapaixonado, que despreza as mulheres que o amam,
por, em última análise, ter sido abandonado pela mãe. Yuddi
rejeita ligações estáveis e qualquer afectividade com o sexo
oposto devido a impossibilidade de consubstanciar a sua
própria identidade, algo que procurará fazer, mesmo que isso
o leve à auto-destruição. É um indivíduo frustrado, à procura
das suas origens e da mãe verdadeira, escondendo tristeza e
instabilidade por detrás da aparente sólida auto-confiança,
usando filosofia de pacotilha para justificar o seu comportamento
com as mulheres: ele é “como um pássaro sem pernas, que não pode
nunca pousar”. Yuddi não “poisa” por não conseguir resolver a
sua identidade, o ponto de partida para
o voo que agora não pode ser interrompido. Por essa razão rejeita
o amor. De um modo que viria a ser típico na obra de Wong, a
personagem nega a estabilidade e a possibilidade de ter uma
vida normal ao lado de quem o ama até ser tarde demais. Ele
relaciona-se com Lizhen (Maggie Cheung Man-yuk), empregada de
balcão num bar, e Mimi (Carina Lau Ka-ling), dançarina num
clube nocturno, e tem a oportunidade de, ao lado de uma delas,
encontrar o equilíbrio da sua vida.
Quando o vier a entender poderá ser já tarde demais. A identidade
é um tema recorrente que tem também uma função cultural e
histórica. Wong Kar-wai nasceu na República Popular da China,
mas tem vivido em Hong Kong — colónia britânica até 1997. O título
do seu último filme, «2046», evoca o final do período de
“um país, dois sistemas”, após o qual o território integrará
plenamente, em termos territoriais e políticos, a RPC.
Em «Days of Being Wild», a mãe (pátria?) encontra-se também
fora do país que Yuddi habita — nas Filipinas. Há algum
paralelismo em «2046», quando Chow (Tony Leung Chiu-wai), viaja
para Singapura à procura de uma resolução que virá a ser,
igualmente, frustrada.
Wong joga com conceitos de identidade cultural e de patriotismo
que têm uma acepção invulgar em Hong Kong, dadas as suas
especificidades — chineses que não pertencem à China, culturalmente
próximos das suas raízes, mas também influenciados pelo Ocidente
e governados pelo Reino Unido (até 1997). O realizador
recorre constantemente a personagens de origens diversas, usando
diferentes línguas e dialectos, por forma a acentuar contrastes
relacionados com a identidade (cultural) e a individualidade
das personagens. A interpenetração, a negação do isolamento
cultural, ilustram-se pela utilização de várias línguas por
algumas personagens, como Wang Fei em «2046» ou Kaneshiro Takeshi
em «Chungking Express», os quais chegam a utilizar cantonês,
mandarim e japonês num breve espaço de tempo, e pela selecção
da música presente na banda sonora, que recorre frequentemente a melodias
pop orientais e ocidentais. O conceito do “tempo certo” é explorado
até a exaustão em várias das obras de Wong Kar-wai. As personagens
esperam demasiado tempo para tomar decisões necessárias. O
momento passa como um flash e depois é tarde demais; segundas
oportunidades não existem no mundo criado pelo realizador, algo
que confere a estes filmes um vincado pessimismo; as personagens
permanecem imersas num mundo de amargura, muitas vezes sem força
de vontade para se manterem à tona.
«Disponível para Amar» é o filme em que Wong concentra de forma
mais clara alguns dos seus conceitos, recorrendo a uma estrutura
narrativa criada em redor de apenas duas personagens centrais,
que dispõem de um longo período de tempo para conseguirem
encontrar a felicidade, a realização de um ideal de amor romântico,
também característico da obra de Wong e representado de forma
mais clara possível em «A Chinese Odyssey 2002», que abarca vários
dos temas do realizador, travestido (por vezes literalmente) de
comédia e spoof do cinema wuxia e óperas de Huangmei, populares
em Hong Kong e na China nos anos 604. Os protagonistas de «Disponível
para Amar» — a Su Lizhen, de «Days of Being Wild», e Chow Mo-wan,
uma personagem que seria apresentada no mesmo filme, mas não
desenvolvida — têm de lidar com obstáculos difíceis de ultrapassar,
sobretudo com o facto de ambos serem casados. Wong remove
inclusive a presença dos cônjuges, permanentemente off-screen,
dando todo o espaço do filme para que Leung e Cheung se movimentem
(e para que ela possa “desfilar” com um extenso guarda-roupa
de época). Mas existem amarras sociais que lhes toldam os
movimentos e restringem os desejos. O “momento certo”, tantas
vezes assinalado pelos planos que enquadram o tempo (relógios
ou a utilização de fotografia em slow-motion ou time-lapse), aqui
é particularmente prolongado, mas, ainda assim, desperdiçado.
O título original do filme poderá traduzir-se para “flores como
os anos”, a partir de uma canção clássica, interpretada por Zhou
Xuan, que se houve na rádio (“Hua Yang de Nianhua” — o título deixa
cair a partícula “de”) 5. Acentua-se, uma vez mais, o passar do
tempo: a juventude (uma flor que desabrochou) e a velhice (com
os anos, as flores secam, tal como as pessoas amadurecem ou
envelhecem). É também Maggie Cheung que se lamenta em «Ashes of
Time», um filme onde o seu papel é reduzido ao ponto do seu rosto
não figurar nos posters, de ter desperdiçado os seus “melhores
anos” ao lado de alguém que não amava. É esta a mesma melancolia
que trespassa «Disponível para Amar».
Se «In the Mood for Love» era caracterizado pela restrição,
«2046» centra-se na consumação física, na sequência de uma
aparente impossibilidade de realização do “ideal romântico”.
Voltamos a Chow, noutra fase da sua vida, sem Su Lizhen. Ela,
no entanto, continua presente, nas suas memórias e no seu coração.
Um fantasma — já se disse e pode dizer-se de novo. Em certa medida,
assistimos ao fechar de um círculo, com Chow a seguir uma atitude
egocêntrica similar à de Yuddi, de «Days of Being Wild», assente
no seu próprio prazer e negando ligações emocionais às mulheres
que passam pela sua cama. A diferença entre as personagens é a sua
maturidade. Yuddi era jovem, escusando-se com filosofia barata;
Chow é um adulto e mais consciente das verdadeiras razões que motivam
o seu modo de agir — mas igualmente incapaz de as superar, como se
constata com a negação de uma possível segunda oportunidade com
Su Lizhen (a outra) —, usando a criação literária como válvula de
escape para as suas fantasias de substituição.
1) Wang Jiawei em mandarim (pinyin). Para os mais distraídos, o
apelido é Wong (ou Wang), sendo o nome próprio formado por dois
caracteres, ligados em pinyin (jiawei) ou separados por um hífen
na romanização mais frequente do cantonês (kar-wai). O ‘r’ em “kar”
é mudo — a pronúncia assemelha-se a “ká” ou “gá”.
2) Hong Kong - The Extra Dimensions (1997, BFI Publishing)
3) Confronte com as declarações de Cheung nas entrevistas para
Cine East - Hong Kong Cinema Through the Looking Glass, de Miles
Wood (1998, Fab Press) ou para o documentário «Yang ± Yin: Gender
in Chinese Cinema» (Hong Kong/Reino Unido, 1996), de Stanley Kwan,
parte da série “The Century of Cinema”, do British Film Institute.
4) «Tianxia Wushuang» (2002). Uma das traduções possíveis ilustra
o “ideal romântico” que se refere ao longo do texto: “único [sem par]
no mundo [sob o céu]”. Produzido por Wong Kar-wai e realizado por
Jeff Lau Chun-wai.
5) O primeiro título internacional anunciado foi «Flowers like Years»,
antes de se ter optado, a posteriori, por «In the Mood for Love», a
partir de uma canção que surge nos trailers mas não no filme.