HomePage > Crónicas > C7nema > Park Chan-Wook 13:21 - 05 Sep 2010
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Park Chan-Wook
Park Chan-Wook

Pela primeira vez em Portugal estreia um filme de Park Chan-Wook, um cineasta que, principalmente, desde o ano 2000, tem estado nas bocas do mundo pelas obras que tem realizado.

Nascido em 1963 em Seul, Coreia do Sul, Park Chan-Wook estudou na Universidade de Sogang. Foi aí que a sua paixão pelo cinema se revelou. Com formação universitária em filosofia, o cineasta sentia uma necessidade de responder cinematograficamente à avalanche “mainstream” que entupia os cinemas coreanos. Depois de “The Moon is… the Sun’s Again” (1992) e “Trio” (1997), Wook apresentou "Joint Security Area" (2000), um filme que tocava na maior ferida – que ainda subsiste – na Coreia do Sul.

Não existe tema mais recorrente nos filmes Coreanos que a separação das Coreias. Dos épicos como “Tae Guk –Ki”, a filmes de pura acção (“Shiri”), passando por romances (“Ditto”) e comédias (“Spy Girl”), este é um tema recorrente no cinema coreano, quer directa, quer indirectamente.

Mas se a base de "Joint Security Area" é uma investigação, o seu combustível é a improvável amizade entre guardas fronteiriços das diferentes Coreias. No fundo, o filme faz uma certa apologia a que as fronteiras terrestres não são suficientes para separar os homens. Repleto de emoções, e exímio na forma como nos envolve, "Joint Security Area" é um filme que apela à união dos povos, em detrimento dos ideais políticos. Aliás, a política é encarada como a única coisa que poderia criar uma desarmonia entre estes vizinhos, e irmãos de sangue. Já o próprio “Tae Guk –Ki”, apesar de mais recente, apregoa a mesma ideia, ao colocar dois irmãos a lutarem para poderem estar juntos e não por qualquer causa “comunista” ou “democrática”.

O que é mais interessante neste trabalho é que Wook consegue, num só filme, fazer-nos sorrir, chorar e acima de tudo pensar. As brincadeiras entre soldados coreanos são hilariantes. Os seus medos e ambições são reflectidas na sua maneira de estar e quando estão juntos. Se não soubéssemos que eram de países diferentes, seria impossível distinguir quem é quem.

O cariz político do tema apresenta ainda algum “background” da presença americana e da forma como é frágil esta separação, pondo em confronto também a forma diferente como cada um dos países embarcou em sistemas diferentes. Convém referir que “Joint Security Área” refere-se a uma zona, entre as duas Coreias, onde se estabelece uma verdadeira separação física. Num lado temos uma linha traçada no chão, no outro (junto ao posto de fronteira dos soldados) uma ponte. E que acontece quando a sombra de um soldado da Coreia do Sul atravessa essa linha física e chega aos limites do norte? Que sucede quando um pequeno cão atravessa entre dois países “inimigos”? Tudo isto pode parecer ridículo, mas a verdade é que são situações que no filme são exploradas brilhantemente, na maioria dos casos de forma cómica, como quando uma turista, que visitava a secção sul da “Área de Segurança”, deixa voar o seu chapéu para a zona Norte. Um filme absolutamente imperdível.

A vingança, tema tão recorrente no cinema, que nos leva a pensar, ainda poderá a vingança surpreender? O sul coreano Park Chan-wook, pensa que sim, e por isso está a realizar uma trilogia subordinada a esse tema. “Sympathy for Mr. Vengeance” é o primeiro título dessa “saga”, e ao qual se seguiu o aclamado “OldBoy”. Disfarçado sob a sua simples temática, “Sympathy for Mr. Vengeance” é um filme riquíssimo em termos de argumento, e de sub-histórias inerentes à trama principal. Passemos então à história em si. Ryu (Shin Ha-kyun) é um homem nos limites do desespero. Este surdo-mudo de nascença vive sozinho com a irmã (Lim Ji-Eun), e trabalha muito de forma a conseguir pagar os tratamentos, e o transplante renal de que ela necessita.

No entanto, tarda em aparecer um dador compatível. Disposto a tudo para a salvar, Ryu acaba por embarcar num esquema de tráfico ilegal de órgãos, doando um dos seus rins em troca de outro compatível com o da irmã. No entanto, acaba por ser enganado pelos traficantes ficando sem o seu rim, o rim para a sua irmã, e claro, sem o dinheiro. Aqui é introduzida na história uma nova personagem na trama Cha Yeong-mi (Bae Doo Na), uma estranha activista que terá um papel fulcral na história. Ela é uma amiga de Ryu, e é ao mesmo tempo o seu veículo de comunicação com o mundo. Aparece então o dador compatível com a sua irmã, mas Ryu perdeu o dinheiro e precisa urgentemente de o ter para a salvar. Do outro lado da história temos Park (Kang-ho Song) um poderoso e rico empresário, que após ter sido abandonado pela mulher pretende dedicar-se a viver com a filha. Mas algo de terrível está prestes a acontecer-lhe, que o fará procurar vingança, compensação e redenção pelos erros do passado.

Ryu e Cha Yeong-Mi planeiam e concretizam o rapto da sua pequena filha Yu-Sun (Han Bo Bae). São “bons” raptores e para além de tratarem muito bem a criança, conseguem mantê-la cativa sem que ela perceba que está presa, e conseguem facilmente o fundamental, o dinheiro do resgate, sem se denunciarem.

Tudo corre pela perfeição, até que a irmã de Ryu morre. Desesperado Ryu leva-a para a sepultar na sua terra natal de onde saíram há muitos anos, leva consigo a pequena Yu Sun e o pior acontece, a menina cai à água e morre sem que Ryu ouça os seus gritos de socorro. Park jura vingança.

A partir daqui seguimos o caminho de dois homens que nada tem a perder e que prometem vingar-se de quem os enganou. Entramos assim num estranho jogo do gato e do rato, onde ninguém é completamente culpado, e ninguém é completamente inocente. Ou seja, Park Chan-wook dá-se ao luxo de “brincar” com os sentimentos dos seus espectadores, não distinguindo os bons e os maus, dando a todos os seus personagens por mais frios e cruéis que sejam, coração e humanidade suficiente, para que nos identifiquemos e gostemos deles.

Dado sobretudo ao seu argumento complexo, o filme demora algum tempo a “encarrilhar” na narrativa. Começamos com um intenso drama familiar, passando depois a um filme sobre reais e cruéis sentimentos de vingança, com rasgos de violência pura e dura. Por outro lado, Park Chan-Wook trata artisticamente a violência, conseguindo verdadeiros planos de génio, sobretudo nos momentos mais duros no filme (basta relembrar todas as cenas dentro de água). Apenas uma nota, negativa para a praticamente inexistência de música no filme, que o torna muito mais frio. E embora esta opção fosse certamente propositada, um bom acompanhamento musical, ajudaria a criar ainda mais empatia entre público e filme.

Concluindo, e embora não tenha remake previsto, “Sympathy for Mr. Vegeance” é daqueles filmes que nos faz perceber porque é que Hollywood se dedica a copiar tudo o que os asiáticos, levam ao cinema. Um filme a não perder.

Joint Security Area Oldboy

2º Filme da sua trilogia sobre a vingança, “Oldboy” é soberbo. Baseado numa banda desenhada japonesa com o mesmo nome, “Oldboy” segue a história de Oh Dae-su (Choi Min-sik), um homem que se vê detido numa prisão sem sequer imaginar a razão para tal e quem está por trás de tudo. Assim, o espectador é convidado a partilhar durante a primeira parte do filme os 15 longos anos de detenção de Oh Dae-su. Esta prisão não é uma comum casa de detenção. A cela está “mascarada” de quarto de Hotel e Oh Dae-su tem uma televisão que lhe permite acompanhar o que se passa lá fora. È assim que descobre que a sua mulher foi assassinada. O estado mental deste homem, como seria de esperar, não é o melhor. Várias vezes ele tenta o suicídio mas quem o deteve não permite que ele morra. As alucinações começam a persegui-lo e para ajudar, o responsável pela sua prisão ainda o gaseia e manipula de forma hipnótica. Enfim, a vida deste homem é um caos de dúvidas e sofrimento. Findo os 15 anos, Oh Dae-su é libertado. Na sua mente só um desejo; encontrar o responsável e fazê-lo pagar por 15 anos perdidos. Mas quem poderia ser assim tão cruel? A resposta não é nada fácil.

Oldboy” é daquele tipo de filmes em que só descansamos quando sabemos como termina. Os planos utilizados por este realizador são fabulosos e, acima de tudo, certos na altura certa e com a duração correcta. Não há palha neste filme e o que assistimos é a uma profunda obra chocante e potencialmente um clássico a curto prazo. A ausência de regras ou tabus, que falei no início, é um ponto muito favorável. Quando não há limites, o campo de acção é maior. Acção, drama, comédia e mesmo algumas cenas gore aliciam-nos mais ainda para um desfecho surpreendente – a todos os níveis.

Para além disso o filme triunfa na vertente técnica, onde uma poderosa banda-sonora, cinematografia apurada (os tons) e a montagem estonteante dão a dinâmica perfeita, para um filme excepcional. Até o guarda-roupa, caracterização e os sets são absolutamente perfeitos para cada cena e as interpretações muito acima da média, destacando-se (inevitavelmente) Choi Min-Sik (“Failan”, “Shiri”), Yu Ji-Tae (“Attack The Gas Station”) e Kang Hye-Jeong (“Nabi”).

Este é um daqueles filmes que facilmente não esquecemos, e que até se tornou um dos favoritos na minha lista de filmes (de sempre). Com esta obra-prima, Park Chan-Wook revelou ser um realizador e argumentista de excepção, e até Tarantino concorda que Wook é absolutamente genial.

Park Chan-wook apresenta “Cut”, um filme que mais uma vez pega na velha temática do cineasta ligada à vingança. Esta é a obra mais explícita e com mais gore, apresentando sequências que deixarão traumatizados muitos pianistas deste mundo. No fundo, Chan-wook foca o meio cinematográfico, a humilhação e o desejo de chamar a atenção, um pouco como “Box”, um filme de Takashi Miike – também presente nesta. Mas o filme vai mais longe e põe em confronto problemas recalcados, obrigados a revelarem-se devido à gravidade dos eventos que vão ocorrendo. O ecrã é assim invadido de horror no limite, que por vezes faz lembrar obras como “Clockwork Orange” e especialmente “Funny Games”, uma fita de Michael Haneke.

Park Chan-wook vai terminar a sua trilogia dedicada à vingança com o filme “Sympathy For Lady Vengeance”. Descrito como um hriller psicológico, com menos gore que “Oldboy”, “Sympathy For Lady Vengeance” marcará o regresso aos cinemas de Lee Young-ae, uma actriz que tem estado a trabalhar mais para a TV coreana.

O filme segue a história de uma mulher que só pensa em vingar-se do homem que a traiu. Para além de ter perdido a filha, a mulher passou 13 anos numa cadeia e quando sai só tem uma ideia em mente: a vingança. Houve também rumores que davam conta de Park Chan-wook como realizador do remake de “Evil Dead”. Essas notícias foram negadas pelo próprio, que apenas não sabia se terminava a sua trilogia sobre a vingança já, ou se fazia um filme que tinha em mente sobre vampiros.

Jorge Pereira
03.2004
 
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