Pela primeira vez em Portugal estreia um filme de Park Chan-Wook,
um cineasta que, principalmente, desde o ano 2000, tem estado nas
bocas do mundo pelas obras que tem realizado.
Nascido em 1963 em Seul, Coreia do Sul, Park Chan-Wook estudou na
Universidade de Sogang. Foi aí que a sua paixão pelo cinema se revelou.
Com formação universitária em filosofia, o cineasta sentia uma necessidade
de responder cinematograficamente à avalanche “mainstream” que entupia os
cinemas coreanos. Depois de “The Moon is… the Sun’s Again” (1992) e
“Trio” (1997), Wook apresentou "Joint Security Area" (2000), um filme
que tocava na maior ferida – que ainda subsiste – na Coreia do Sul.
Não existe tema mais recorrente nos filmes Coreanos que a separação
das Coreias. Dos épicos como “Tae Guk –Ki”, a filmes de pura acção
(“Shiri”), passando por romances (“Ditto”) e comédias (“Spy Girl”),
este é um tema recorrente no cinema coreano, quer directa, quer
indirectamente.
Mas se a base de "Joint Security Area" é uma investigação, o seu
combustível é a improvável amizade entre guardas fronteiriços das
diferentes Coreias. No fundo, o filme faz uma certa apologia a
que as fronteiras terrestres não são suficientes para separar os
homens. Repleto de emoções, e exímio na forma como nos envolve,
"Joint Security Area" é um filme que apela à
união dos povos, em detrimento dos ideais políticos. Aliás, a
política é encarada como a única coisa que poderia criar uma
desarmonia entre estes vizinhos, e irmãos de sangue. Já o próprio
“Tae Guk –Ki”, apesar de mais recente, apregoa a mesma ideia, ao
colocar dois irmãos a lutarem para poderem estar juntos e não por
qualquer causa “comunista” ou “democrática”.
O que é mais interessante neste trabalho é que Wook consegue, num
só filme, fazer-nos sorrir, chorar e acima de tudo pensar. As
brincadeiras entre soldados coreanos são hilariantes. Os seus
medos e ambições são reflectidas na sua maneira de estar e quando
estão juntos. Se não soubéssemos que eram de países diferentes,
seria impossível distinguir quem é quem.
O cariz político do tema apresenta ainda algum “background” da
presença americana e da forma como é frágil esta separação, pondo
em confronto também a forma diferente como cada um dos países
embarcou em sistemas diferentes. Convém referir que “Joint Security
Área” refere-se a uma zona, entre as duas Coreias, onde se
estabelece uma verdadeira separação física. Num lado temos uma
linha traçada no chão, no outro (junto ao posto de fronteira dos
soldados) uma ponte. E que acontece quando a sombra de um soldado
da Coreia do Sul atravessa essa linha física e chega aos limites
do norte? Que sucede quando um pequeno cão atravessa entre dois
países “inimigos”? Tudo isto pode parecer ridículo, mas a verdade
é que são situações que no filme são exploradas brilhantemente, na
maioria dos casos de forma cómica, como quando uma turista, que
visitava a secção sul da “Área de Segurança”, deixa voar o seu
chapéu para a zona Norte. Um filme absolutamente imperdível.
A vingança, tema tão recorrente no cinema, que nos leva a pensar,
ainda poderá a vingança surpreender? O sul coreano Park Chan-wook,
pensa que sim, e por isso está a realizar uma trilogia subordinada
a esse tema. “Sympathy for Mr. Vengeance” é o primeiro título dessa
“saga”, e ao qual se seguiu o aclamado “OldBoy”. Disfarçado sob a
sua simples temática, “Sympathy for Mr. Vengeance” é um filme
riquíssimo em termos de argumento, e de sub-histórias inerentes
à trama principal. Passemos então à história em si. Ryu (Shin Ha-kyun)
é um homem nos limites do desespero. Este surdo-mudo de nascença
vive sozinho com a irmã (Lim Ji-Eun), e trabalha muito de forma a
conseguir pagar os tratamentos, e o transplante renal de que ela
necessita.
No entanto, tarda em aparecer um dador compatível. Disposto a tudo
para a salvar, Ryu acaba por embarcar num esquema de tráfico ilegal
de órgãos, doando um dos seus rins em troca de outro compatível com
o da irmã. No entanto, acaba por ser enganado pelos traficantes
ficando sem o seu rim, o rim para a sua irmã, e claro, sem o dinheiro.
Aqui é introduzida na história uma nova personagem na trama Cha
Yeong-mi (Bae Doo Na), uma estranha activista que terá um papel
fulcral na história. Ela é uma amiga de Ryu, e é ao mesmo tempo
o seu veículo de comunicação com o mundo. Aparece então o dador
compatível com a sua irmã, mas Ryu perdeu o dinheiro e precisa
urgentemente de o ter para a salvar.
Do outro lado da história temos Park (Kang-ho Song) um poderoso
e rico empresário, que após ter sido abandonado pela mulher pretende
dedicar-se a viver com a filha. Mas algo de terrível está prestes
a acontecer-lhe, que o fará procurar vingança, compensação e
redenção pelos erros do passado.
Ryu e Cha Yeong-Mi planeiam e concretizam o rapto da sua pequena
filha Yu-Sun (Han Bo Bae). São “bons” raptores e para além de
tratarem muito bem a criança, conseguem mantê-la cativa sem que
ela perceba que está presa, e conseguem facilmente o fundamental,
o dinheiro do resgate, sem se denunciarem.
Tudo corre pela perfeição, até que a irmã de Ryu morre. Desesperado
Ryu leva-a para a sepultar na sua terra natal de onde saíram há
muitos anos, leva consigo a pequena Yu Sun e o pior acontece, a
menina cai à água e morre sem que Ryu ouça os seus gritos de
socorro. Park jura vingança.
A partir daqui seguimos o caminho de dois homens que nada tem
a perder e que prometem vingar-se de quem os enganou. Entramos
assim num estranho jogo do gato e do rato, onde ninguém é
completamente culpado, e ninguém é completamente inocente. Ou
seja, Park Chan-wook dá-se ao luxo de “brincar” com os sentimentos
dos seus espectadores, não distinguindo os bons e os maus, dando
a todos os seus personagens por mais frios e cruéis que sejam,
coração e humanidade suficiente, para que nos identifiquemos e
gostemos deles.
Dado sobretudo ao seu argumento complexo, o filme demora algum
tempo a “encarrilhar” na narrativa. Começamos com um intenso drama
familiar, passando depois a um filme sobre reais e cruéis sentimentos
de vingança, com rasgos de violência pura e dura. Por outro lado,
Park Chan-Wook trata artisticamente a violência, conseguindo
verdadeiros planos de génio, sobretudo nos momentos mais duros
no filme (basta relembrar todas as cenas dentro de água). Apenas
uma nota, negativa para a praticamente inexistência de música no
filme, que o torna muito mais frio. E embora esta opção fosse
certamente propositada, um bom acompanhamento musical, ajudaria
a criar ainda mais empatia entre público e filme.
Concluindo, e embora não tenha remake previsto, “Sympathy for Mr.
Vegeance” é daqueles filmes que nos faz perceber porque é que
Hollywood se dedica a copiar tudo o que os asiáticos, levam ao
cinema. Um filme a não perder.
2º Filme da sua trilogia sobre a vingança, “Oldboy” é soberbo.
Baseado numa banda desenhada japonesa com o mesmo nome, “Oldboy”
segue a história de Oh Dae-su (Choi Min-sik), um homem que se vê
detido numa prisão sem sequer imaginar a razão para tal e quem
está por trás de tudo. Assim, o espectador é convidado a partilhar
durante a primeira parte do filme os 15 longos anos de detenção de
Oh Dae-su. Esta prisão não é uma comum casa de detenção. A cela
está “mascarada” de quarto de Hotel e Oh Dae-su tem uma televisão
que lhe permite acompanhar o que se passa lá fora. È assim que
descobre que a sua mulher foi assassinada. O estado mental deste
homem, como seria de esperar, não é o melhor.
Várias vezes ele tenta o suicídio mas quem o deteve não permite
que ele morra. As alucinações começam a persegui-lo e para ajudar,
o responsável pela sua prisão ainda o gaseia e manipula de forma
hipnótica. Enfim, a vida deste homem é um caos de dúvidas e
sofrimento. Findo os 15 anos, Oh Dae-su é libertado. Na sua mente
só um desejo; encontrar o responsável e fazê-lo pagar por 15 anos
perdidos. Mas quem poderia ser assim tão cruel? A resposta não é
nada fácil.
“Oldboy” é daquele tipo de filmes em que só descansamos quando
sabemos como termina. Os planos utilizados por este realizador
são fabulosos e, acima de tudo, certos na altura certa e com a
duração correcta. Não há palha neste filme e o que assistimos é
a uma profunda obra chocante e potencialmente um clássico a curto
prazo. A ausência de regras ou tabus, que falei no início, é um
ponto muito favorável. Quando não há limites, o campo de acção
é maior. Acção, drama, comédia e mesmo algumas cenas gore
aliciam-nos mais ainda para um desfecho surpreendente – a todos
os níveis.
Para além disso o filme triunfa na vertente técnica, onde uma
poderosa banda-sonora, cinematografia apurada (os tons) e a
montagem estonteante dão a dinâmica perfeita, para um filme
excepcional. Até o guarda-roupa, caracterização e os sets são
absolutamente perfeitos para cada cena e as interpretações muito
acima da média, destacando-se (inevitavelmente) Choi Min-Sik
(“Failan”, “Shiri”), Yu Ji-Tae (“Attack The Gas Station”)
e Kang Hye-Jeong (“Nabi”).
Este é um daqueles filmes que facilmente não esquecemos, e que
até se tornou um dos favoritos na minha lista de filmes (de sempre).
Com esta obra-prima, Park Chan-Wook revelou ser um realizador e
argumentista de excepção, e até Tarantino concorda que Wook é
absolutamente genial.
Park Chan-wook apresenta “Cut”, um filme que mais uma vez pega
na velha temática do cineasta ligada à vingança. Esta é a obra
mais explícita e com mais gore, apresentando sequências que
deixarão traumatizados muitos pianistas deste mundo. No fundo,
Chan-wook foca o meio cinematográfico, a humilhação e o desejo
de chamar a atenção, um pouco como “Box”, um filme de Takashi
Miike – também presente nesta. Mas o filme vai mais longe e põe
em confronto problemas recalcados, obrigados a revelarem-se devido
à gravidade dos eventos que vão ocorrendo.
O ecrã é assim invadido de horror no limite, que por vezes faz
lembrar obras como “Clockwork Orange” e especialmente “Funny
Games”, uma fita de Michael Haneke.
Park Chan-wook vai terminar a sua trilogia dedicada à vingança
com o filme “Sympathy For Lady Vengeance”. Descrito como um
hriller psicológico, com menos gore que “Oldboy”, “Sympathy For
Lady Vengeance” marcará o regresso aos cinemas de Lee Young-ae,
uma actriz que tem estado a trabalhar mais para a TV coreana.
O filme segue a história de uma mulher que só pensa em vingar-se
do homem que a traiu. Para além de ter perdido a filha, a mulher
passou 13 anos numa cadeia e quando sai só tem uma ideia em
mente: a vingança. Houve também rumores que davam conta de Park
Chan-wook como realizador do remake de “Evil Dead”.
Essas notícias foram negadas pelo próprio, que apenas não sabia
se terminava a sua trilogia sobre a vingança já, ou se fazia um
filme que tinha em mente sobre vampiros.