Entrevista efectuada a Takashi Miike, um dos maiores ícones do
cinema nipónico. Takashi Miike debutou no cinema com Shinjuku
Kuroshakai em 1995, e desde então tem sido sempre uma carreira
non-stop. Algumas das suas obras mais notáveis são Audition,
Dead or Alive e o magnífico Ichi the Killer. Quem vê os seus
filmes, não imagina que Takashi Miike é uma pessoa extremamente afável.
Bruno: Antes de mais, queria que me dissesses quais são as
maiores diferenças entre o cinema de horror Japonês e o Americano?
Takashi Miike: Deixa-me só agradecer-te pelo facto de estares
a levar as minhas palavras a Portugal, um país que eu acredito
que é maravilhoso. Olá Portugueses (gargalhadas)! Em relação
à tua pergunta, isso tem muito a ver com a opinião pessoal de
cada um. Pessoalmente, eu acredito que, até cerca de meados dos
anos 90, os filmes de horror Japoneses eram fortemente influenciados
por todo o cinema Americano,
mas acho que agora os papéis se inverteram. Pessoalmente, acredito
que no Japão se faz actualmente um cinema de horror muito superior
ao Americano. Podes ver isso facilmente pelo facto de os melhores
filmes de horror Americanos dos últimos anos serem remakes de
filmes Japoneses.
Bruno: A crítica Norte-Americana geralmente cataloga os teus
filmes como perversos e isso leva-me a uma nova pergunta.
Acreditas que pode haver beleza no grotesco e na perversidade?
Miike: Sinceramente, eu não ligo nada ao que diz a imprensa
estrangeira acerca dos meus filmes, pois eu acredito que somente
os Japoneses, ou quem conheça a cultura Japonesa, os pode
perceber. Por exemplo, em " Audition ". O que se passa naquele
filme em relação ao comportamento dos produtores e das outras
personagens, é assim na vida real. A cara e a postura das jovens
japonesas transmitem uma candura e um sentimento de inocência
muito grande, mas nada te diz que essa rapariga não está a pensar
em qual é a melhor forma de te despedaçar aos bocados. A raça
Japonesa pode ter essas ambiguidades. As pessoas têem uma ideia
pré-concebida acerca da maneira como as coisas devem ser, e a
maneira como eu filmo é a minha visão da vida.
Bruno: Os teus filmes são a conjugação de dois géneros que tu
dominas na mestria: o cinema yakuza e o cinema de horror. O que
é que tu esperas alcançar com esta mistura destes dois géneros?
Miike: Trabalho dessa maneira pois acho que esses dois estilos
combinados oferecem enormes possibilidades acerca daquilo que
se pode fazer, não te limitando a um só estilo.
Bruno: Qual achas que é a explicação para o facto de o cinema
de horror japonês ser tão popular na América actualmente?
Miike: Eu não consigo perceber isso, assim como os outros
realizadores japoneses não percebem. Acho que é o facto de
as emoções que nós conseguimos transmitir serem muito pesadas.
São filmes muito intensos, e isso é algo de novo para a plateia
americana.
Bruno: Existe alguma coisa que tu serias incapaz de abordar num
dos teus filmes?
Miike: Bem, podes ficar um pouco desapontado com isto, mas uma
dessas coisas era uma acidente de carro. É uma coisa que acontece
sem aviso prévio e que de repente te pode matar ou deixar aleijado
para o resto da vida. Acho que os maiores horrores, são aqueles
que se podem ver na vida diária.
Bruno: Para finalizar esta entrevista, como é que achas que
ficaria um filme mainstream de Miike?
Miike: Não muito bem, acho eu (gargalhadas). Bem, há o One
Missed Call que foi considerado um filme mainstream porque foi
rodado com um grande orçamento e teve uma estreia em muitas salas
no Japão. Mas, sinceramente, acho que o mainstream ainda não
está preparado para mim (gargalhadas).
Bruno: OK Takashi. Obrigado por esta entrevista. Há alguma coisa
que queiras dizer aos teus fãs em Portugal, que eu sei que são
muitos?
Miike: Vejam muito cinema Japonês. Há todo um mundo novo à espera
de ser descoberto.
Espero que tenham gostado desta curta entrevista, onde o universo
de Miike foi um pouco revelado. Mas, como devem imaginar, uma
conversa com alguém como Miike pode durar as horas que forem, e,
mesmo assim, algo ficará por dizer.