Pois bem, sentado numa mesa do Starbucks em Shibuya-Tokyo,
olho pela janela e vejo a multidão enorme de teenagers japoneses
que se movimenta naquela que é considerada como a capital
da juventude de Tokyo.
À minha frente, tenho como companhia Mamoru Oshii, aquele
que é considerado como um dos maiores expoentes do anime
da actualidade. Como curiosidade tenho que salientar que a
entrevista foi toda conduzida em japonês, visto que Oshii
não fala nada de inglês. Como se isso não fosse bastante,
Oshii não fala... murmura.
Por vezes fala tão baixo que é difícil perceber o que está
a dizer. Dito isto, passemos ao resultado desta conversa:
Bruno: O conceito de Innocence gira bastante a volta das
Dolls (bonecos), mas num sentido que até hoje não tinha sido
explorado. Há um sentido de que as Dolls - especialmente os
Gainoids - têm um espírito humano, mas não sendo humanos ao
mesmo tempo. São uma representação de Dolls muito diferente
de filmes como Toy Story.
Oshii: Isso tem muito a ver com a cultura Japonesa, que é
muito diferente da Ocidental. Nós pensamos que os bonecos
têm um espírito e é por essa razão que, quando já não temos
nenhum uso para um boneco, não o deitamos fora, com medo de
que o boneco nos lance uma maldição. Nós levamos o boneco a
um Sacerdote, que realiza um ritual para apaziguar o seu
espírito. A grande diferenca é que em Toy Story os bonecos
são usados para recriação.
Bruno: Além de que não parecem bonecos de todo. As suas faces
têm expressões humanas, algo muito diferente das expressões
dos Gainoids, que são realmente aterradoras...
Oshii: Eu quis distanciar-me dessa fórmula. Os bonecos de
Innocence não se movem tal e qual como um humano, como em
Toy Story. Tens por exemplo Bateau que é um cyborg (metade
humano e metade robot). A forma como ele está animado reflecte
essa dualidade. Os seus movimentos não são nem humanos nem
robóticos. São uma amálgama dos dois. E isto vale para o
resto das personagens. Até as faces estão animadas assim,
quase parecendo marionetas. O resultado final creio que é
verdadeiramente aterrador. O inanimado que demonstra que
afinal tem um resquício de vida é uma das coisas com mais
impacto que podes ter num filme.
Bruno: Estando agora em 2004, vemos o quão acertado estava
o Ghost in the Shell original de 1995, com a visão do futuro
da Internet.
Oshii: Sim, creio que foi um filme avançado para a época
em que foi feito e que ainda hoje conserva um aspecto visual
impressionante. Estou muito orgulhoso do resultado final
do filme.
Bruno: E a produção do filme foi mesmo impressionante.
Como o facto de pegares num grupo de desenhadores e mandá-los
para Hong Kong com um bloco de esboços para desenharem as
ruas como cenários para o filme...
Oshii: (risos) Sim, foi mesmo uma coisa atribulada. De
facto, acho que sou o responsável pelo divórcio de alguns
desses artistas... (risos).
Bruno: Apesar de ser uma sequela, Innocence afasta-se em
muitos aspectos do seu predecessor. Apesar de ser passado
no futuro, o filme tem um look muito retro, como se pode
ver nos carros, nos edifícios, e até nas Dolls. O sentimento
também é diferente. O primeiro filme trata da tecnologia e
como esta estava a modificar o homem. Em Innocence, já não
focas isso.
Oshii: A principal razão é que, apesar de o filme se passar
no futuro, pretendo retratar a sociedade dos nossos dias. Não
estou a fazer ficção científica pura.
Esta foi a pequena entrevista possível com Mamoru Oshii, e
podem contar com outras entrevistas com personagens de renome
do mundo do anime.
Como de certo já repararam, esta crónica afasta-se um pouco
da estrutura das duas anteriores. No entanto, é esta que vem
para ficar. Além de vos trazer as últimas notícias do mundo
do anime, vão ter também acesso a entrevistas e biografias
das pessoas que mais se destacam no mundo da animação japonesa.
Aproveito para vos anunciar que Portugal vai estar associado
a um projecto de anime. A empresa por mim criada, a Digital
Beauties Films, vai lançar Posthuman, uma série que mistura
cyberpunk com erotismo. A Digital Beauties Films tem representação
em Portugal e no Japão, com um escritório em Londres - Inglaterra,
a ser aberto nos próximos dois meses. Pretendo trazer o anime
em força para o mercado Europeu. O site oficial da empresa
estará disponível a 2 de Junho, com a URL a ser anunciada no
fórum da EOL.