HomePage > Entrevistas > Mamoru Oshii 01:21 - 09 Sep 2010
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Mamoru Oshii
Mamoru Oshii

Pois bem, sentado numa mesa do Starbucks em Shibuya-Tokyo, olho pela janela e vejo a multidão enorme de teenagers japoneses que se movimenta naquela que é considerada como a capital da juventude de Tokyo.

À minha frente, tenho como companhia Mamoru Oshii, aquele que é considerado como um dos maiores expoentes do anime da actualidade. Como curiosidade tenho que salientar que a entrevista foi toda conduzida em japonês, visto que Oshii não fala nada de inglês. Como se isso não fosse bastante, Oshii não fala... murmura.

Por vezes fala tão baixo que é difícil perceber o que está a dizer. Dito isto, passemos ao resultado desta conversa:

Bruno: O conceito de Innocence gira bastante a volta das Dolls (bonecos), mas num sentido que até hoje não tinha sido explorado. Há um sentido de que as Dolls - especialmente os Gainoids - têm um espírito humano, mas não sendo humanos ao mesmo tempo. São uma representação de Dolls muito diferente de filmes como Toy Story.

Oshii: Isso tem muito a ver com a cultura Japonesa, que é muito diferente da Ocidental. Nós pensamos que os bonecos têm um espírito e é por essa razão que, quando já não temos nenhum uso para um boneco, não o deitamos fora, com medo de que o boneco nos lance uma maldição. Nós levamos o boneco a um Sacerdote, que realiza um ritual para apaziguar o seu espírito. A grande diferenca é que em Toy Story os bonecos são usados para recriação.

Bruno: Além de que não parecem bonecos de todo. As suas faces têm expressões humanas, algo muito diferente das expressões dos Gainoids, que são realmente aterradoras...

Oshii: Eu quis distanciar-me dessa fórmula. Os bonecos de Innocence não se movem tal e qual como um humano, como em Toy Story. Tens por exemplo Bateau que é um cyborg (metade humano e metade robot). A forma como ele está animado reflecte essa dualidade. Os seus movimentos não são nem humanos nem robóticos. São uma amálgama dos dois. E isto vale para o resto das personagens. Até as faces estão animadas assim, quase parecendo marionetas. O resultado final creio que é verdadeiramente aterrador. O inanimado que demonstra que afinal tem um resquício de vida é uma das coisas com mais impacto que podes ter num filme.

Bruno: Estando agora em 2004, vemos o quão acertado estava o Ghost in the Shell original de 1995, com a visão do futuro da Internet.

Oshii: Sim, creio que foi um filme avançado para a época em que foi feito e que ainda hoje conserva um aspecto visual impressionante. Estou muito orgulhoso do resultado final do filme.

A Equipa de Mamoru Oshii Toshio Suzuki

Bruno: E a produção do filme foi mesmo impressionante. Como o facto de pegares num grupo de desenhadores e mandá-los para Hong Kong com um bloco de esboços para desenharem as ruas como cenários para o filme...

Oshii: (risos) Sim, foi mesmo uma coisa atribulada. De facto, acho que sou o responsável pelo divórcio de alguns desses artistas... (risos).

Bruno: Apesar de ser uma sequela, Innocence afasta-se em muitos aspectos do seu predecessor. Apesar de ser passado no futuro, o filme tem um look muito retro, como se pode ver nos carros, nos edifícios, e até nas Dolls. O sentimento também é diferente. O primeiro filme trata da tecnologia e como esta estava a modificar o homem. Em Innocence, já não focas isso.

Oshii: A principal razão é que, apesar de o filme se passar no futuro, pretendo retratar a sociedade dos nossos dias. Não estou a fazer ficção científica pura.

Esta foi a pequena entrevista possível com Mamoru Oshii, e podem contar com outras entrevistas com personagens de renome do mundo do anime.

Como de certo já repararam, esta crónica afasta-se um pouco da estrutura das duas anteriores. No entanto, é esta que vem para ficar. Além de vos trazer as últimas notícias do mundo do anime, vão ter também acesso a entrevistas e biografias das pessoas que mais se destacam no mundo da animação japonesa.

Aproveito para vos anunciar que Portugal vai estar associado a um projecto de anime. A empresa por mim criada, a Digital Beauties Films, vai lançar Posthuman, uma série que mistura cyberpunk com erotismo. A Digital Beauties Films tem representação em Portugal e no Japão, com um escritório em Londres - Inglaterra, a ser aberto nos próximos dois meses. Pretendo trazer o anime em força para o mercado Europeu. O site oficial da empresa estará disponível a 2 de Junho, com a URL a ser anunciada no fórum da EOL.

Até à próxima.

Bruno A. F. Patatas
 
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