HomePage > Crónicas > Luís Canau > Takeshi Kitano 12:33 - 05 Sep 2010
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Takeshi Kitano
Takeshi Kitano

Kitano Takeshi nasceu em Tóquio, em 1947, iniciando a sua carreira artística nos palcos, como artista de manzai (“stand-up comedy”), sob o nome de 'Beat' Takeshi, o qual continua, ainda hoje, a usar para distinguir o actor do realizador. Kitano trabalhava em conjunto com outro actor (Beat Kiyoshi), com o qual formava o duo “os dois Beats”. A partir daí, o realizador enveredou por um caminho que o viria a tornar um dos entertainers mais populares no Japão e, hoje em dia, ainda intervém em cinco programas televisivos semanais. Foi devido à sua popularidade como comediante, que Kitano teve alguma dificuldade em ser levado a sério no país natal. Já depois de ser reconhecido como um realizador de cinema e um “autor” no Ocidente, continuava a ser visto apenas como um comediante no Japão, sem que Takeshi Kitano em filmagens os seus filmes fossem particularmente bem sucedidos nas bilheteiras locais. Kitano também é autor de romances e contos, ensaios, poesia, desenho e pintura, encontrando ainda tempo para participar em filmes de outros realizadores, como «Battle Royale» (2001), de Fukasaku Kinji (e a sequela, já deste ano), «Taboo» (1999), de Oshima (que o dirigiu no seu primeiro papel no cinema, em «Feliz Natal, Mr. Lawrence», 1983) ou «Tokyo Eyes» (1998), de Jean-Pierre Limosin.

Battle Royale Dolls

A notoriedade de Kitano Takeshi começou com aquele que é um dos seus melhores filmes, «Fogo de Artifício / Hana-Bi» (1997), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, onde o realizador desenvolve o que é, no fundo, um drama romântico, sustido em contrastes; no choque entre a violência e a ternura, o belo e o horrendo – algo que se depreende, desde logo, do título original (flores-fogo), cuja romanização é hifenizada de modo a separar os sentidos de dois caracteres que, em conjunto, assumem o sentido correctamente atribuído pelo título nacional. O fogo-de-artifício é também um símbolo da harmonia familiar e da felicidade conjugal que, como desde cedo constatamos, tem os dias contados.

Para quem leia regularmente críticas aos filmes de Kitano, a sua obra parece ter uma tendência a dividir-se em duas vertentes principais: o cinema de gangsters, em que 'Beat' Takeshi é o protagonista de actos de grande violência, com sangue a salpicar por todo o lado, e os filmes mais "sensíveis", com ou sem a presença do realizador defronte das câmaras. Outro ponto de vista, relacionado com esta divisão da obra de Kitano, é de que todos os filmes que não se refiram ao submundo do crime japonês são filmes “de transição” ou uma mera pausa na concepção das obras que interessam realmente, algo que até se aprecia, até certos limites (belos planos contemplativos aceitam-se, mas 10 minutos sem uma matança não são inadmissíveis). Esta divisão não faz muito sentido, quer analisemos a obra do realizador no seu conjunto, quer nos tentemos abstrair de quaisquer linhas condutoras, analisando filme a filme, uma vez que os temas, a visão e a sensibilidade de Kitano estão presentes num ou noutro “género”, mesmo naqueles trabalhos que não foram criados ab initio como projectos de concepção pessoal, do artista, nomeadamente no primeiro «Violent Cop» [«Sono Otoko, Kyobo ni Tsuki»] (1989) e no último «Zatoichi» (2003). Se há um “OVNI” a identificar na sua carreira como realizador é «Getting Any?» [«Minna Yatteruka!»] (1995), um filme que o próprio Kitano considera um falhanço, tendo-se mostrado surpreendido com o interesse que levou ao lançamento em vídeo em alguns países. Ali tentou um humor slapstick, o spoof a filmes de série B e ao próprio cinema de comédia em geral, mas o resultado final foi bastante decepcionante, já que o humor é muito limitado.

Zatoichi Zatoichi

O penúltimo filme de Kitano, «Dolls» (2002), enquadra-se no conjunto dos seus três títulos mais emotivos, ao lado de «Hana-Bi» e «A Scene at the Sea» [«Ano Natsu, Ichiban Shizukana Umi»], que, em 1991, já vinha contrastar com a violência que o precedia em filmes de yakuza, como «Violent Cop». Desde logo, Kitano não quis confinar-se a um género específico ou deixar-se catalogar. Mas não foi isso que evitou que algumas vozes, descontentes com «Dolls», o mandassem voltar a pegar na arma e a dar uns tiros (mas para quê a insistência com o filme de gangsters se «Brother» é um dos seus filmes menos interessantes?). De certa forma, poderíamos englobar aqui «O Verão de Kikujiro/Kikujiro no Natsu» (1999), mas o seu tom é diverso, com o realizador a optar não só por uma aproximação mais familiar, como também “feelgood”. Trata-se de um filme para nos deixar a sorrir, a milhas de distância da tristeza exalada pelo outros três, com finais típicos de Kitano, que, ainda que tenham um ou outro pôr-do-sol, não incluem um casal a caminhar de mão dada, com a câmara a elevar-se numa grua, preparando a entrada dos créditos finais. Kitano tem, inegavelmente, visão cinematográfica, mas um filme raramente pode resultar do trabalho de uma única pessoa, ainda que se trate de alguém com um controle invulgar sobre as obras que assina, escrevendo, dirigindo e montando os seus filmes (além de protagonizar a maioria).

O realizador sabe rodear-se de profissionais competentes e da sua inteira confiança. Recorre aos mesmos designers de luz e de som (Takaya Hitoshi e Horiuchi Senji, respectivamente) desde o primeiro filme. Yanagijima Katsumi fotografou nove das suas obras e o designer de produção Isoda Norihiro, trabalhou com ele pela sétima vez em «Zatoichi». Por outro lado, Hisaishi Jo escreveu a música para sete filmes de Kitano, mas foi considerado inadequado (por ser pouco flexível) para assinar a partitura da sua última obra, competindo agora essa tarefa a Suzuki Keiichi. «Zatoichi», estreado no Festival de Veneza deste ano e previsto para Portugal para 2004, está fadado para ser o filme de Kitano mais bem sucedido comercialmente, estando já também a ter uma boa recepção por parte da crítica. Com base numa personagem familiar do universo do chambara , protagonista de uma série de 26 filmes (de 1961 a 1989), Kitano cria uma história com uma estrutura simples, em que o herói – um espadachim cego que ganha a vida no Japão do século XIX como jogador e massagista – enfrenta um bando que mantém uma aldeia sob um jogo de terror e ajudar duas geishas , na busca da vingança pela morte dos pais.

Humor, violência, sangue digital a jorros e números de sapateado marcam uma nova forma de criar cinema, por parte de um dos mais importantes realizadores de cinema contemporâneos.

Luis Canau
09.2005
 
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