Kitano Takeshi nasceu em Tóquio, em 1947, iniciando a sua
carreira artística nos palcos, como artista de manzai
(“stand-up comedy”), sob o nome de 'Beat' Takeshi, o qual
continua, ainda hoje, a usar para distinguir o actor do
realizador. Kitano trabalhava em conjunto com outro actor
(Beat Kiyoshi), com o qual formava o duo “os dois Beats”.
A partir daí, o realizador enveredou por um caminho que o
viria a tornar um dos entertainers mais populares no Japão
e, hoje em dia, ainda intervém em cinco programas televisivos
semanais. Foi devido à sua popularidade como comediante, que
Kitano teve alguma dificuldade em ser levado a sério no
país natal. Já depois de ser reconhecido como um realizador
de cinema e um “autor” no Ocidente, continuava a ser visto
apenas como um comediante no Japão, sem que Takeshi Kitano
em filmagens os seus filmes fossem particularmente bem sucedidos nas
bilheteiras locais. Kitano também é autor de romances e
contos, ensaios, poesia, desenho e pintura, encontrando
ainda tempo para participar em filmes de outros realizadores,
como «Battle Royale» (2001), de Fukasaku Kinji (e a sequela,
já deste ano), «Taboo» (1999), de Oshima (que o dirigiu no
seu primeiro papel no cinema, em «Feliz Natal, Mr. Lawrence»,
1983) ou «Tokyo Eyes» (1998), de Jean-Pierre Limosin.
A notoriedade de Kitano Takeshi começou com aquele que
é um dos seus melhores filmes, «Fogo de Artifício / Hana-Bi»
(1997), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza,
onde o realizador desenvolve o que é, no fundo, um drama
romântico, sustido em contrastes; no choque entre a
violência e a ternura, o belo e o horrendo – algo que se
depreende, desde logo, do título original (flores-fogo),
cuja romanização é hifenizada de modo a separar os
sentidos de dois caracteres que, em conjunto, assumem o
sentido correctamente atribuído pelo título nacional. O
fogo-de-artifício é também um símbolo da harmonia familiar
e da felicidade conjugal que, como desde cedo constatamos,
tem os dias contados.
Para quem leia regularmente críticas aos filmes de Kitano,
a sua obra parece ter uma tendência a dividir-se em duas
vertentes principais: o cinema de gangsters, em que 'Beat'
Takeshi é o protagonista de actos de grande violência, com
sangue a salpicar por todo o lado, e os filmes mais "sensíveis",
com ou sem a presença do realizador defronte das câmaras. Outro
ponto de vista, relacionado com esta divisão da obra de Kitano,
é de que todos os filmes que não se refiram ao submundo do
crime japonês são filmes “de transição”
ou uma mera pausa na concepção das obras que interessam realmente,
algo que até se aprecia, até certos limites (belos planos
contemplativos aceitam-se, mas 10 minutos sem uma matança
não são inadmissíveis). Esta divisão não faz muito sentido,
quer analisemos a obra do realizador no seu conjunto, quer
nos tentemos abstrair de quaisquer linhas condutoras, analisando
filme a filme, uma vez que os temas, a visão e a sensibilidade
de Kitano estão presentes num ou noutro “género”, mesmo
naqueles trabalhos que não foram criados ab initio como
projectos de concepção pessoal, do artista, nomeadamente
no primeiro «Violent Cop» [«Sono Otoko, Kyobo ni Tsuki»] (1989)
e no último «Zatoichi» (2003). Se há um “OVNI” a identificar na
sua carreira como realizador é «Getting Any?» [«Minna Yatteruka!»]
(1995), um filme que o próprio Kitano considera um falhanço,
tendo-se mostrado surpreendido com o interesse que levou ao
lançamento em vídeo em alguns países. Ali tentou um humor slapstick,
o spoof a filmes de série B e ao próprio cinema de comédia
em geral, mas o resultado final foi bastante decepcionante,
já que o humor é muito limitado.
O penúltimo filme de Kitano, «Dolls» (2002), enquadra-se no
conjunto dos seus três títulos mais emotivos, ao lado de «Hana-Bi»
e «A Scene at the Sea» [«Ano Natsu, Ichiban Shizukana Umi»],
que, em 1991, já vinha contrastar com a violência que o
precedia em filmes de yakuza, como «Violent Cop». Desde logo,
Kitano não quis confinar-se a um género específico ou deixar-se
catalogar. Mas não foi isso que evitou que algumas vozes,
descontentes com «Dolls», o mandassem voltar a pegar na arma
e a dar uns tiros (mas para quê a insistência com o filme de
gangsters se «Brother» é um dos seus filmes menos interessantes?).
De certa forma, poderíamos englobar aqui «O Verão de Kikujiro/Kikujiro
no Natsu» (1999), mas o seu tom é diverso, com o realizador a
optar não só por uma aproximação mais familiar, como também
“feelgood”. Trata-se de um filme para nos deixar a sorrir,
a milhas de distância da tristeza exalada
pelo outros três, com finais típicos de Kitano, que, ainda
que tenham um ou outro pôr-do-sol, não incluem um casal a
caminhar de mão dada, com a câmara a elevar-se numa grua,
preparando a entrada dos créditos finais. Kitano tem, inegavelmente,
visão cinematográfica, mas um filme raramente pode resultar do
trabalho de uma única pessoa, ainda que se trate de alguém com
um controle invulgar sobre as obras que assina, escrevendo,
dirigindo e montando os seus filmes (além de protagonizar a
maioria).
O realizador sabe rodear-se de profissionais competentes e
da sua inteira confiança. Recorre aos mesmos designers de luz
e de som (Takaya Hitoshi e Horiuchi Senji, respectivamente)
desde o primeiro filme. Yanagijima Katsumi fotografou nove das
suas obras e o designer de produção Isoda Norihiro, trabalhou
com ele pela sétima vez em «Zatoichi». Por outro lado, Hisaishi
Jo escreveu a música para sete filmes de Kitano, mas foi
considerado inadequado (por ser pouco flexível) para
assinar a partitura da sua última
obra, competindo agora essa tarefa a Suzuki Keiichi. «Zatoichi»,
estreado no Festival de Veneza deste ano e previsto para Portugal
para 2004, está fadado para ser o filme de Kitano mais bem
sucedido comercialmente, estando já também a ter uma boa recepção
por parte da crítica. Com base numa personagem familiar do
universo do chambara , protagonista de uma série de 26 filmes
(de 1961 a 1989), Kitano cria uma história com uma estrutura
simples, em que o herói – um espadachim cego que ganha a vida no
Japão do século XIX como jogador
e massagista – enfrenta um bando que mantém uma aldeia sob um jogo
de terror e ajudar duas geishas , na busca da vingança pela morte
dos pais.
Humor, violência, sangue digital a jorros e números de sapateado
marcam uma nova forma de criar cinema, por parte de um dos mais
importantes realizadores de cinema contemporâneos.